Amamentação

23.6.17
Estava perante uma mulher, com parto ocorrido há 48horas. A minha colega tirou o bebé do berço, entregou-o no colo da mãe e disse: “Vamos coloca-lo à mama?” Ao que a mãe responde: “Não…não quero amamentar!”

Ficou um ambiente algo comprometedor no ar. No entanto…esta mulher após ter sido devidamente esclarecida sobre as vantagens da amamentação foi respeitada e apoiada na sua decisão. A amamentação dever ser acima de tudo um prazer!


Parece por vezes existir uma pressão social para a perfeição da mulher, das suas escolhas, das suas capacidades. Este exemplo real que acima vos apresento, permite somente transmitir que, ainda que a amamentação seja um benefício inquestionável, existe um outro lado, o de uma mulher, que como tal tem direito às suas escolhas, a ter dúvidas…inseguranças, tem direito a errar e acima de tudo a ser apoiada!

Com este artigo quero vos transmitir as maravilhas da amamentação, mas antes de tudo dizer-vos que pode não ser perfeito, e aliás não têm que exigir isso de vocês.

Quero ainda realçar outro “aspecto” importante, o papel do pai. Parece que o homem é um pouco afastado desta temática. No entanto, é importante existir um pai motivado, positivo, envolvido, que apoie a mulher neste processo. Inclusivamente, pode ser imprescindível quando surgem problemas, auxiliando diretamente nos cuidados mamários.

A amamentação é um processo ímpar, íntimo e especial que em si só confere vantagens como: fortalecimento da vinculação, estímulo visual e contacto físico. Resulta de um processo complexo e inato do organismo da mulher. Ao longo da gravidez o sistema endócrino tem vindo a “trabalhar” na produção hormonal. Quando o bebé nasce, e há estímulo mamário existem duas hormonas mandatárias envolvidas neste processo: a prolactina, grande responsável no estímulo produtivo de leite, e a ocitocina, responsável pela contração muscular do tecido mamário permitindo a chegada do leite ao bebé. Atenção! A ocitocina é influenciada pela ansiedade e stress: mães preocupadas, representa menor produção de ocitocina e consequentemente menor produção de leite. Daí a importância deste ser um processo prazeroso.

Para a mulher, representa vantagens como: redução do risco de vários tipos de cancro e osteoporose, ajuda a readquirir a forma física, proporcionando uma perda geral do peso e contribui para que o útero volte às suas dimensões anteriores (involução uterina).

Para o bebé, o leite materno é quase como que um “liquido prodígio” cheio de potencialidades: Reúne os nutrientes essenciais ao crescimento da criança, facilita o processo de digestão, previne infecções (gastrintestinais, respiratórias e urinárias), protege contra alergias, contribui para reduzir doenças crónicas como a diabetes. Para além de tudo isto é económico, ecológico, seguro e está “sempre” disponível, à temperatura correcta.

Fotografia | Sugar & Soul





As recomendações da OMS são para o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros 6 meses, seguindo a amamentação parcial até ao segundo ano de vida. Claro que, e mais uma vez é importante afirmar que não há obrigações e tudo depende do ritmo de cada criança e família.

Deixo-vos algumas questões que me são colocadas … e que poderão ser interessantes para vocês:

O leite…será sempre igual?
Não. Nos primeiros dias após o parto o leite produzido tem o nome de colostro e é essencialmente rico em anticorpos, quase como uma primeira vacina. Tem um aspeto espesso, pegajoso e mais amarelado. Nas duas semanas seguintes, aumenta a produção de leite e chega o leite de transição, menos rico em anticorpos e proteínas aumentando a quantidade de gordura (interessa-nos que o bebé cresça). Por fim chega o leite maduro que se mantém até ao final deste processo respondendo em quantidade e qualidade às necessidades do bebé.

O leite sofre ainda alterações na sua composição ao longo de um mesmo processo de amamentação (a cada mamada). A gordura do leite aumenta progressivamente, podendo-se considerar que no final, o leite apresenta cerca de 5 vezes mais gordura que inicialmente. É por este motivo que se torna super importante esvaziar a mama em cada vez que se amamenta, disponibilizando-se assim todas as qualidades do leite.

O bebe já nasce ensinado para mamar?

O bebé nasce com reflexos, isto é, atos instintivos que exibe quando é estimulado. Assim sendo, podemos considerar que este é um processo inato, e que o nosso bebé está pronto para nos ajudar. Mas atenção, tanto ele como a mulher, e até o pai precisam de tempo e dedicação para “aplicar conhecimentos”.

Na amamentação estão presentes: o reflexo de busca – quando a mãe aproxima o bebé do peito e este começa a executar movimentos de procura – girando a cabeça de um lado para o outro; o reflexo de preensão – quando ao ser estimulado pelo mamilo o bebé dirige instintivamente a cabeça e boca em direção ao local e começa a sugar; e o reflexo de sucção e deglutição – quando o bebé suga o mamilo apoiando os lábios na aréola, fechando-os quase hermeticamente em forma de vácuo e executa movimentos rítmicos do maxilar e da língua que atuam na extração do leite e instintivamente quando a boca está cheia de leite é forçado a engolir.

Amamentar pelo relógio…ou …ouvir o bebé…?

Habitualmente no período inicial de vida o bebé mama cerca de 12 vezes em 24 horas. Podemos considerar que 20 mint é o tempo óptimo para uma mamada e que o bebé conseguirá ficar saciado durante 3 horas. Esta é uma “referência”, que poderá servir de algum apoio para vocês. No entanto, principalmente no período inicial, ambos (mãe e bebé) estão a encontrar um ritmo, acontecendo adormecer à mama e acordar de uma em uma hora. Posteriormente, o importante é perceber se o bebé está bem adaptado, ou seja se está a ingerir a quantidade de leite suficiente para o seu crescimento (está a desenvolver bem? Como está o bebé? a mama é esvaziada?). E habitualmente isto representa um equilíbrio entre a tal “referência” que vos falei e o acordar da criança com choro de fome.(que poderá acontecer ser antes das 3 horas!)

Quando bem adaptado o leite de cada mãe adequa-se às necessidades de cada bebé, sendo o esvaziamento mamário o principal “motor” de produção de leite. Ou seja, quanto maior a procura, maior a produção.

Existem pontos-chave para o sucesso?

Sim, é aquilo a que chamamos sinais para uma boa pega. Ou seja, são aspetos fundamentais estarem reunidos na amamentação para que esta aconteça de forma eficaz e não traga complicações para a mulher. Eles são:

* Boca bem aberta apanhando grande parte da auréola mamária
* Lábio inferior voltado para fora/invertido
* Mais auréola visível na zona superior
* Queixo a tocar na mama
* Mão da mãe formando um “C” entre o dedo pulgar e os outros quando segura a mama
* Bochechas do bebé redondas (cheias de leite), com sução mais lenta do que quando mama na chupeta.

Espero que vos seja útil.

No próximo artigo falarei sobre as complicações que podem surgir e como as resolver ;)

Já sabem, têm suporte para vosso apoio: B Á BÁ do bebé, terei todo o gosto, usufruam!

Até breve
A vossa enfermeira

Ângela Baptista

Fotografia | Sugar & Soul





Referências:
  • Mestrado de especialização em Saúde Infantil e pediatria pela Escola Superior de Enfermagem de Lisboa.
  • Instrutora de Massagem Infantil pela Associação Portuguesa de Massagem Infantil.
  • Enfermeira em internamento de pediatria e experiência em urgência pediátrica.
  • Colaboração em redação de artigos para portais e outros meios de divulgação.
  • Enfermeira no âmbito da saúde escolar (Fazer Aprender Saúde)
  • Autora do projeto "B Á BÁ do Bebé" - Ajudar a crescer. Levar o apoio/suporte e aprendizagem sobre bebé no período pré e pós parto em domicílio e em clínica.
  • Formadora em cursos de parentalidade, workshops e formações na área da saúde da criança 

1 comentário:

  1. 24 meses e ainda mama. Foi fácil? Não não foi. Passei horrores pois o peito encaroçou. A força de vontade foi maior pelo meu filho. Respeito quem não o que é fazer seja qual for a razão. Adoro aqueles olhinhos a pedir mama e o aconchego... é tão bom. ��

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