A decisão

21.4.21

Quando me perguntam sobre o aborto a minha resposta foi sempre unânime, sou a favor desde que se tenha um motivo muito válido para o fazer e que a decisão seja consciente com todas as consequências que isso possa implicar.

Só quem passa por um assunto tão delicado como um possível aborto é que pode responder de uma forma válida. Tudo o resto são vozes com opiniões muitas vezes levianas.

No entanto sou contra um aborto, porque sim. Só porque agora "não apetece".

O que vos posso dizer é que vivenciei na primeira pessoa: A decisão de interromper uma gravidez "não válida" ou meter em causa a qualidade de vida de um bebé e o bem estar de uma família inteira.

E sim. Esta gravidez foi interrompida por mim, de forma consciente, sem que houvesse vozes de terceiros a pressionar uma decisão. 

Quando tomei a decisão de fazer a amniocentese foi de ânimo leve, não havia nada que indicasse algo. Mas como já partilhei convosco desde que o Tomás nasceu, que tenho feito por opção pessoal e também devidamente aconselhada pelo meu médico que tanto confio.

Vou sempre sem medos, e esta gravidez não foi exceção. No momento em que a agulha está para ser espetada, a médica recua e diz-me que se a posição do bebé não mudar, que não arriscaria, até porque não havia motivo aparente para a fazer.

Mas assim que o diz, o bebé muda a posição e ela de uma forma segura espeta. 

Repouso absoluto durante três dias. Estava tranquila e pouco ou nada pensava naquele resultado. 

Até que num dia a sair do trabalho, já tarde, o meu telefone toca, e aí tremi! Naquele momento percebi que algo não estava bem, não pelo telefone porque todos os resultados me foram dados dessa forma, mas pela energia negativa que senti, quando vi o nome da minha médica no telefone. 

Respirei fundo, atendi! 

"Andreia, onde está? Estou a ir para casa. Mas está sozinha? Sim. Quer que lhe ligue mais logo? Não, pode já dizer.

Andreia, não tenho boas notícias para lhe dar, e aí foi como se tivesse levado um soco no estômago tão forte, que me levou o ar. Ouvi com atenção: O bebé veem com uma alteração muito grave, com graves problemas a nível de orgãos vitais, motoros e cognitivos. Com uma esperança média de vida pequena. É algo muito raro. E Andreia, não é uma trissomia, vai muito mais além que isso. É Grave!

Já falei com o seu médico ele já sabe de tudo, vá para junto do seu marido e vejam com o vosso médico o melhor para vocês. Do que precisar de mim estou aqui".

Desliguei. Fiquei cinco minutos dentro do carro a chorar e a pensar como é que aquilo me estava a acontecer. Ceguei naquele momento, não consegui pensar em nada. E a dor aumentava quando me lembrava que seria eu, sozinha, a dar esta notícia ao meu marido.

Respirei fundo mas ao mesmo tempo que respirava, as forças falhavam. Em segundos tive de ganhar forças para dar esta notícia quando eu ainda nem as tinha para mim.

Nunca desejei tanto não ir para casa, como naquele dia. Abro a porta de casa a tremer, olho para o meu marido e tenho-o a sorrir para mim enquanto está a dar o jantar à Constança. Vou em direcção à sala, respiro fundo, e em frações de segundos chamo-o, e naquele momento ele percebe que algo não está bem.

Dei-lhe a notícia a chorar e naquele instante vejo-o tal como eu, a desfalecer! Vejo-lhe a revolta no olhar e a preocupação por mim como nunca tinha visto até então.

Naquele momento, metemos tudo em cima da mesa e decidimos juntos! 

Seria um caminho ingrato e sem esperança para um bebé indefeso e para uma família inteira. Não podíamos ser egoístas, ao ponto de trazer um bebé ao mundo para sofrer e dar uma batalha sem esperança aos nossos três filhos que já cá estavam.

Nãos lhes quis fazer isso! Estava muita coisa em causa! 

E foi nesse dia que rejeitei a minha barriga, tive três dias sem olhar para ela. É duro carregar um filho na nossa barriga para depois o "matarmos".

Palavra forte esta! Mas era assim que me sentia. Culpada! 

Foi esta, a razão da minha gravidez interrompida às 19 semanas.

Hoje com alguma ajuda, não me sinto culpada, tenho a certeza da minha decisão! E não me arrependo em nada. E a palavra morte deu lugar à palavra salvar. É nisto que hoje acredito. Que salvei a minha filha do sofrimento.

Sei que este assunto é controverso e que gera muita opinião. Mas não se esqueçam que deste lado está uma pessoa com sentimentos e que não precisa de julgamentos.

A Empatia deverá prevalecer sempre para um mundo melhor!

Eu disse-vos, que a seu tempo vos contaria os motivos, e hoje estão aqui preto no branco.

Obrigada pelo vosso carinho, respeito e amor que nos fizeram chegar neste período tão difícil da nossa vida. Serei-vos eternamente grata.

Um beijinho 

Andreia 



Sobre um amor que entrou sem pedir licença

20.4.21

O amor quando nasce pode ser de várias formas, não é preto no branco.

E foi na terapeuta do Tomás, que encontrei um dos amores mais bonitos que alguma pensei conhecer.

Um amor puro, genuíno, que vai muito além de "notas" ao fim do mês.

Lembro-me do dia em que lhe "dei" o meu filho Tomás para os seus braços, ela uma miúda de 24 anos, ele um bebé de quatro meses. Disse-lhe os meus sonhos, e o que ambicionava,  apresentei-lhe o método de estimulação que lhe fazia diariamente e confiei-lhe.

Nos primeiros dias ainda aferi o seu trabalho, ainda analisei os relatórios para perceber o que estava a ser feito, mas rapidamente percebi que tinha em mãos mais que uma terapeuta.

Aos poucos deixei-a assumir o seu comando e eu ganhei o meu papel de mãe. 

Eram quatro horas de trabalho árduo, em que tantas vezes foi mãe, irmã e terapeuta do meu filho.

A Filipa por incrível que pareça é um dos pilares mais fortes da nossa vida. Aquele pilar que ao abanar, arrasta uma família inteira.

Deixou-nos durante seis meses para ir viver um sonho e foram talvez os piores seis meses da nossa vida. 

Mas mesmo longe acompanhou o desenvolvimento do Tomás de perto e quando o seu avião aterrou, jurámos que nunca mias nos separávamos e assim foi até hoje.

Hoje não é só a teraputa do Tomás, é a irmã que sempre sonhei, é a minha confidente, é quem vive as minhas alegrias e as minhas tristezas em primeira mão, é a madrinha da Constança, é a minha sócia. É a minha estrela Guia!

É a nossa Filipa! Foi quem acreditou desde o primeiro dia, desbravou caminhos tantas vezes impossíveis e tornou o impossível, no possível!

Tem no seu trabalho um dom e o dinheiro nunca será suficente para lhe pagar o que fez e faz por nós.

A si Filipa desejo-lhe o que desejo para mim! Uma vida feliz!

Parabéns!! E que venham mais 31 ao seu lado 💗

Andreia




Dores de crescimento

8.4.21

Vê-los crescer dói, pelo menos a mim custa-me.

E se sou muito prática e descomplicada em algumas coisas, aqui sou super complicada. Demoro a aceitar o seu crescimento e isso vê-se no meu adiamento constante nas coisas mais simples, como nos berços, auto cadeiras e outras tantas que chegam a ser parvas. 

Sou daquelas mães que por mim aos 18 ainda usavam perfume Mustela.

Eles terão as suas dores de crescimento que fazem parte e nós como mães teremos as nossas. Queixamos-nos que não temos tempo para mais nada além deles e que a nossa vida é comandada pelas suas vidas mas tememos o dia em que não precisarão mais de nós. E que a nossa casa deixará de ter o barulho de fundo que tanto nos enlouquece mas que nos faz tão feliz.

Aos poucos as roupas de bebé dão lugar a roupas de adolescentes, com vontade própria. O cheiro a bebé dissipa-se no ar. Os berços passam a camas de meio corpo e o nosso colo começa a ser rejeitado em prol dos "amassos" dos namorados/as.

Todos os dias crescem mais um bocadinho e é quando dormem que sinto mais isso. A sua autonomia é prazerosa mas assustadora ao mesmo tempo.

É a vida e cabe-nos aceitá-la da melhor forma!

É aproveitar todos os bocadinhos porque se hoje custa, amanhã deixará saudades!

E vocês como são?

Look 
Boys&Girl | Maria Costura
Mum | Tia Bé






A minha combinação perfeita

31.3.21

Sempre ambicionamos pertencer às famílias numerosas por isso quando o Tomás nasceu, em momento algum desisti do nosso sonho.

E dias antes do Tomás completar o seu primeiro aniversário, descobri que estava grávida. Não houveram medos mas sim uma grande felicidade.

Seriam 20 meses que os separava. E aquele cliché de não conseguir amar outro filho da mesma forma acompanhou-me até o ver pela primeira vez.  É quase como uma explosão de amor que se apodera de nós. E o amor multiplica-se de uma forma que nunca pensámos. É uma multiplicação de um amor único.

Logisticamente os primeiros meses não foram fáceis, eram dois bebés, com necessidades diferentes e embora apenas fossem dois, houve alturas que senti que tinha uma fábrica de bebés em casa pois passava o meu tempo entre um e outro, sendo que o Francisquinho, era daqueles bebés que só estava satisfeito ao colo.

Houve alturas em que me perdi na escuridão da maternidade, outras que chorei porque me sentia a ser engolida num cansaço sem fim.

Mas se este Primeiro ano foi desafiante traduziu-se ao longo do tempo na melhor coisa que lhes podia ter dado.

Estão a crescer e a descobrir o mundo juntos e isso valeu cada cansaço do passado!! Complementam-se na perfeição, são o braço direito e esquerdo um do outro, pode-lhes faltar tudo, desde que isso não passe por ficarem um sem o outro.

A sua fraqueza é a força um do outro! São a minha combinação perfeita! 

Um é loiro, o outro é moreno, um tem uma alimentação exímia, o outro é a gulodice em pessoa, um tem no mundo nos olhos, o outro o mundo às costas. Um é extrovertido, o outro é introvertido. Um é do mundo, o outro é da casa!

Mas os dois são meus e eu à seis anos não previa que estivesse a construir o meu maior império! Eles, os meus filhos! A minha força!



O dia que dá voz à Trissomia 21

21.3.21

Dizem que é o teu dia mas eu cada vez dou-lhe menos importância!

Um dia que dá voz à trissomia 21. O dia em que me mostra que trissomia é uma definição tantas vezes vaga. Sem o certo e o errado.

Mas afinal o que é a trissomia além de uma alteração genética que resulta de uma anomalia no processo de divisão celular do óvulo fecundado. Uma cópia extra no cromossoma 21.

Chamam-no de cromossoma do amor e disso não tenho dúvidas!

O meu euro milhões! O Tomás é a criança mais mágica e a personificação da simplicidade e do Amor!

E aquelas frases ignorantes pré feitas como "É uma infelicidade ou se tivéssemos que escolher filhos por catálogo não os escolheríamos" não deixam de ser autênticas tolices, isto para não dizer outras coisas piores!

Ter um filho com Trissomia 21 é ir à lua trezentas vezes por dia. É dar a volta ao mundo num só dia. É chorar de felicidade e aplaudir de pé as coisas mais simples da vida. É viver na plenitude do ser e da resiliência.

E eu apenas fui uma sortuda por me ter calhado a melhor rifa no dia 6 de Agosto de 2014. 

Tem coisas menos boas, como tudo na vida. Mas isso faz parte da maternidade!

Existem uns olhos achinesados, alguma maior dificuldade em algumas aquisições de desenvolvimento e uma pureza no sorriso nunca vista.

Que este dia seja apenas um dia que mostra que a diferença está nos olhos de quem a quer ver. O resto é só uma magia que se vê ao longe e se sente na alma.


Ju Araújo



O melhor Pai

19.3.21

Dizem que a mulher procura no seu marido características do seu pai. E embora não os ache iguais, encontrei no meu marido o reflexo do meu. O sentido de família! 

Ser Pai vai muito além de um DNA. Ser Pai é estar na primeira linha das vitórias e das quedas da vida. É quem dá pulos de alegria e quem ampara na queda.  

E eu tive a sorte de ter encontrado o melhor pai para os meus filhos! Um pai presente, preocupado e atento. Um pai que os olha nos olhos, que lhes dá o bom dia e a boa noite com aquele beijinho aconchegante.

Que orienta, que lhes dá banho, que muda as fraldas e que embala.

Que lhes dá liberdade para serem, mas com regras. Que fala e que explica os segredos da vida. Que respeita a mãe.

A todos os bons pais que existem neste mundo. Um Feliz Dia!




Voz própria

18.3.21

Assim que o Tomás nasceu a minha principal preocupação era que ele fosse aceite na sociedade, e a sua aceitação passava por ele se igualar aos seus pares. 

Não queria que em momento algum o olhassem com pena, porque as penas eu deixo para as galinhas, ou que o agrupassem e o catalogassem. Queria apenas que o vissem como um ser individual e com vontade própria. 

Mas para isso tínhamos de ir à luta, e competia a nós desbravar esse caminho, tantas vezes ainda virgem.

O truque foi sorrir e falar abertamente sobre a trissomia e isso só por si além de me fazer passar por "maluquinha", desarmava qualquer pesssoa.

Não me juntei a grupos, não que seja contra, mas isso para mim seria só uma chamada de atenção para a "diferença" do Tomás e eu não queria que a sua Trissomia se sobrepusesse ao seu nome próprio!

Foi aqui que me foquei! Em normalizar a Trissomia, sabendo desde sempre que ele nunca deixaria de a ter, mas também nunca tive essa pretensão, pois o seu cromossoma a mais faz parte dele.

Lutei pela sua comunicação porque isso abriria as portas para o seu futuro! Para mim não havia símbolos ou gestos mas sim palavras, era isso que ambicionava, mesmo que isso implicasse um caminho mais difícil.

Fui em frente com o meu coração, mesmo quanto tive técnicos a dizerem-me que o caminho não passava por aí. Ignorei e procurei as respostas que queria ouvir.

Lutei acima de tudo pelo que lhe tinha jurado: normalidade! 

Não houve, discursos para bebé, mas palavras de adulto desde sempre. Não houve "papa" e "popó" mas sim comida e carro.

Houve terapia e muita! Muitas estratégias entre os técnicos e nós família por um caminho que ambicionava.

Segui o meu instinto e quando via adultos com trissomia 21 procurava ver como falavam, muitos deram-me esperança, outros nem tanto. Mas nunca duvidei! Não sabia o trabalho que tinha sido feito em criança por isso não me focava em exemplos maus mas nos bons, e se havia pelo menos alguém que conseguia, era porque era possível!

Desbravei um caminho longo, para que o Tomás falasse corretamente, articulasse palavras e frases e hoje posso dizer que o faz, nem sempre na perfeição desejada, porque ainda temos um caminho para percorrer mas adequado para se conseguir ouvir.

Não precisa de mim para se exprimir, sabe-o fazer, diz o que quer e o que pensa, e embora curtas já faz frases.

Hoje mandou-me ter calma, e para respirar fundo e aí (incrédula) percebi que nunca estive enganada!