O Colo Vazio

23.2.21

Uma perca gestacional seja ela qual for é um processo solitário, que implica muitas questões físicas e emocionais que deixam marcas.

Primeiro rejeitei a barriga, recusei-me a olhar mais para ela, tinha medo do que iria enfrentar e do que o espelho me iria dizer. Depois obriguei-me a olhar e a enfrentar toda esta situação de frente. Enfrentei o meu medo, toquei-lhe e despedi-me dela aos poucos.

Deitei-me nervosa, sem certezas de como as coisas iriam correr, de como eu iria lidar com um parto natural mas sem bebé. Tinha bem presente as dores das contrações dos meus últimos partos, dores estas boas e que se transformam em lágrimas de felicidade. Por isso recusava-me a ter de passar por elas, não queria sofrer, para no fim não ter nada.

Diziam-me que epidural não se justificava e eu só implorava por ela. 

E foi quando tomei aqueles comprimidos que tudo começou, as dores vinham e iam ao mesmo tempo que eu ganhava força e perdia.

Pelo meio levantava-me, olhava pela janela, e tentava perceber tudo o que me estava a acontecer. Percebi que o feeling de uma mãe nunca se engana, e que o medo que sentia nesta gravidez, tinha razão de existir. 

Ao espelho de uma casa de banho fria, despedi-me e pedi para Deus e todos os anjos que pudessem existir me protegessem de tamanha dor.

Estava aterrorizada, sozinha num quarto. Do outro lado tinha uma mãe a sofrer por mim e segurar as pontas e mm marido que não sabia o Norte e o Sul. E que me disse "Não posso ficar sem ti"

As dores começaram a ser galopantes e com muita intensidade. Já não sabia mais o que fazer, ou o que pensar. Sentia no olhar das enfermeiras tristeza e impotência em segurar aquelas dores.

Caí num sono agitado, até que acordei e implorei que me ajudassem porque eu não estava a aguentar mais. 

Nesse instante deu-se uma mudança de turno, e a enfermeira que saiu deixou-me entregue a uma que  que ninguém quer apanhar.

Conseguiu rebentar-me as águas com a sua brutalidade, ao mesmo tempo que lhe implorava para parar.

E nesse momento disse-me: Vai para o Bloco de Partos! Que horas são? 20.20h, feche as pernas, não faça força, que não pode agora nascer. Só pode ir às 20.30h. Mas como? Eu estou cheia de dores. Arrancou-me o fio que assinalava "Amor para a vida toda, Tomás Francisco e Maria Constança". 

No meu quarto havia uma agitação para me arrumarem as coisas, disse-lhes que isso não era o importante. Para me levarem. Aqueles dez minutos foram os maiores da minha vida. Tinha a voz da enfermeira a fazer eco na minha cabeça para fechar as pernas e para não fazer força. E eu com mais medo ficava pois do que mais temia era este parto. Não queria sequer ver. 

As 20.29h batiam no meu telefone e finalmente as portas do meu quarto abriram-se e fui para um caminho sem retorno. 

Pelo caminho temi que tivesse por passar por uma situação traumática. Cheguei a um bloco escuro, frio, com uma equipa de enfermeiros a olharem para mim. No olhar levava medo. 

Dois enfermeiros entraram no bloco de partos, apresentaram-se, disse-lhes que eu não tinha vontade de fazer força mas que estava com muitas dores. Deram-me de imediato uma medicação que me fez adormecer de imediato.

Acordei eram 21.30h, telefonei ao meu marido e de seguida à minha mãe. Disse-lhes que estava bem mas que ainda ali estava.

Desliguei rapidamente porque eu não queria estar ali sozinha. Chamei de imediato o enfermeiro, disse-lhe que talvez tivesse a sentir algo, foi-me ver e já não saiu do meu lado.

Disse-lhe que não queria ver nada, mas que queria saber se era menina ou menino.

Meti a cabeça de lado, para não ver nada, senti uma paz que em momento algum tinha sentido, senti Deus ali de mãos dadas comigo (o meu marido chama-lhe "drogas") mas eu quero acreditar que foi algo mais que uma medicação. Fiz a força necessária que me pediu e às 22h ganhei um colo vazio.

A minha vontade foi respeitada, levaram, sem que eu visse nada e disse-me no seu regresso que era uma menina.

E aí doeu bem lá no fundo, não por ser uma menina mas porque não tinha nada nos braços.

Entrei e saí sozinha. E isso deixa marcas! Deixa-nos vazias por dentro e por fora.

Obrigada a toda a equipa de enfermeiros do Hospital São Francisco de Xavier que me acompanharam, ao meu médico que esteve sempre comigo através do telefone. E um especial obrigada ao Enfermeiro Pedro por me ter respeitado enquanto mãe e mulher.








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