Deixar a vida em suspenso

16.3.20
Faz hoje uma semana que ganhei medo, que comecei a ficar insegura perante este vírus, de seu nome Covid-19.

As noites deixaram de ser tranquilas com as notícias a chegarem ao minuto. Aos poucos e poucos comecei a perceber que o Conovírus já não era algo tão estranho e tão longe. Começava a ganhar dimensão e quando na quarta os fui buscar à escola, com a incerteza que esta podia encerrar, peguei nas suas coisas, e saí com a certeza que independentemente da medida do governo eles já não iam mais.

Na cara dos pais via-se medo, uma escola que noutros tempos era alegre sentia-se pânico. Com os olhos em lágrimas, peguei em tudo o que lhes pertencia e saímos.

As notícias continuavam alarmantes e à 00h eu e a terapeuta do T tomamos uma das decisões mais dificeis: Fechar portas do nosso Desenvolve-T!

Trabalhamos com crianças, muitas delas consideradas de risco, damos diariamente esperança às nossas famílias e não podíamos correr riscos. Por elas e e por nós!

Poucas horas de sono e ainda abrimos porta, maquilhei-me para disfarçar a noite mal dormida e abrimos naquele dia a medo, asseguramos os mínimos, e o bom dia alegre que me é característico através da nossa porta deu lugar a bom dia bem baixinho e com medo.

E ali as duas, no meio do nosso sonho, com lágrimas à mistura fechamos!

Fiquei ali duas horas, sem perceber na realidade o que estava ali a fazer, mas algo não me deixava sair, fiquei sem reação, a olhar para aquelas paredes cheias de vida mas já sem alma.

Foi duro! Mas com consciência que tinha sido o melhor para todos!

Depois foi chegar a casa e agarrar-me à minha família, tomar medidas e reorganizar uma vida que era obrigada a ficar suspensa por tempo indeterminado.

Nesse dia não consegui sair da nossa casa, era muita coisa ainda para processar e eu com uma dor de cabeça gigante.

Sexta, acordámos com a decisão tomada, iríamos fazer malas e ir para um dos sítios que mais paz nos dá. Não podíamos ficar ali atrás das janelas a ver a nossa cidade transformar-se num fantasma.

Chorei... mas era o melhor! Deixar tudo por um bem maior custa muito. É a nossa casa que deixamos para trás, os nossos sonhos, as nossas coisas, por todos. Aqui não é uma questão de nos salvarmos mas de salvarmos a nossos pais, os nossos avós, irmãos e amigos.

Nunca ficamos tanto tempo afastados, nunca me vi numa situação destas como todas as pessoas, na realidade acho que ninguém estava preparado para desligar do mundo desta forma.

E de um momento para o outro, deixa de existir o rico, o pobre, o alto, o baixo, o "normal" e o "anormal", o "preto" ou o branco. Existem apenas pessoas e todas somos iguais!

É aqui que a união e o amor tem de prevalecer! Não existe margem para pensar no dinheiro ou na parte mais material da cena.

É uma crise financeira que vai imperar nos próximos tempos, é um país que aos poucos e poucos para porque de nada vale continuarmos a correr como "loucos" em busca de dinheiro quando a nossa saúde entra em jogo.

Na mala levei roupas básicas, brinquedos, comida, medicamentos e esperança de voltar à nossa casa o quanto antes e feliz!

Que sensação estranha bater portas sem saber como e quando voltaremos.

Desejo-vos acima de tudo proteção e que em casa juntos vençamos este vírus


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