A (maior) dor da maternidade

26.11.20

Em tempos recebi uma mensagem para que pudesse falar sobre a dor de perder um filho ainda na barriga e embora saiba que infelizmente é algo que acontece não podia escrever algo que felizmente não sei o que é.

Acredito que exista dor, uma dor que nos corrói a alma, mas na vida há coisas que só quem passa por elas é que sabe. 

Tenho consciência que é um assunto tabu, que pouco se fala, e que tantas mães são tratadas com indiferença, pela parte médica quando isso acontece.

E embora eu conheça muito pouco sobre o assunto, sei que um feto por mais pequeno que seja, é um bebé que se está a formar, e é nosso. Não precisamos de o ter nas mãos para chama-lo de filho ou até mesmo para o amar da mesma forma.

É uma perca! E um amor que teve pouco tempo para se materializar.

Hoje partilho uma história, não minha, mas de uma mãe, que sentiu essa dor.

"Corria o ano de 2010, um ano de mudanças e recomeços, já tinha dois filhotes e queria o terceiro de uma nova relação, estávamos felizes, consegui engravidar facilmente, na primeira consulta foram feitos vários exames devido à minha idade, 38 anos.

Corria tudo bem até vir um resultado que nos abalou um bocadinho, lesão de alto grau no Colo do Útero, na altura não compreendi bem o que seria mas a médica que viria a ser a minha médica (Anjo no Hospital de Cascais) alertou-me que era muito grave e o meu problema era a gravidez, fiz biópsia, resultado final "Cancro no Colo Útero".

Vacilei, fiquei meio perdida, quais seriam as minhas hipóteses? Não queria perder o meu bebé, deram-me três soluções e escolhi a que para mim seria a mais acertada, ser tratada grávida. Fui tratada excelentemente e corria bem, mas às 20 semanas numa ecografia de rotina com uma médica que não conhecia levei com esta frase "o bebé está morto, não tem batimentos", assim sem preocupações e eu sozinha, digerir foi difícil, acreditar foi quase impossível.

Fui internada, explicaram-me que ia ser submetida a um IMG(Interrupção Médica Gravidez) que é um processo com protocolo e poderia durar horas ou dias, o meu durou quatro dias intermináveis, sozinha numa sala de partos a ouvir bebés a chorar e eu ali à espera do meu, sem vida, valeu-me a minha ginecologista que esteve comigo e não me deixou cair.

Foi doloroso e triste mas sou forte e segui em frente sem medo, engravidei novamente e perdi, continuei e perdi, perdi seis vezes, ou seja tive seis abortos (palavra feia) dois dos quais ainda fui à sala de operações. Fizeram-me testes, exames, imensos e nada conclusivo. 

Desgastei-me, sofri bastante e apesar de muito querer este bebé desisti, a minha cabeça e o meu corpo também.

Este testemunho serve para?

Porque infelizmente ninguém nos prepara para isto mas também ninguém se chega verdadeiramente a nós quando acontece, ou porque não estão preparados ou porque simplesmente é mais fácil, quando digo isto falo dos médicos, enfermeiros, amigos chegados e família, sei que não é por mal mas a sociedade está enraizada desta forma. Nós que perdemos não queremos que se calem, queremos calor, amor, acompanhamento, dessa forma faz sentido, faz-nos bem.

Hoje com 48 anos não esqueço nada, nem um momento mas como diria o meu paizinho " o que tiver de ser será na hora certa" e foi, sem esperar e nada planeado a um mês de completar 45 anos, nasceu o meu Tiago, luz da nossa casa, a bênção que me faltava e que acalmou o meu coração".







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