A minha carta aos meus filhos

4.5.20

O mundo lá fora parou.

Mas o nosso continuou.

O mundo ficou em silêncio.

Mas aqui, dentro das nossas quatro paredes, continuou o movimento, as vozes, os choros e as gargalhadas.

O mundo lá fora abrandou.

Mas aqui dentro aconteceram tantas coisas.

Chegou este dia. O dia em que o mundo despertou novamente.

Foram muitas as vezes em que o desejei. Por cansaço, por desespero, por impotência.

E muitas também, as que quis adia-lo.

Apesar de tudo, tranquilizava-me o facto de estarmos só nós. Na nossa bolha. Protegidos. Envolvidos e nutridos pelo nosso amor. Na nossa forma de viver esta fase. Na linha que nos separava entre a magia de acreditar que vai correr tudo bem e a possibilidade de não correr.

Aqui nada de mal poderia acontecer. Nada de mal vos poderia acontecer.

Inicialmente foram tantas as dúvidas, os medos, a confusão na cabeça de cada um. Aos pouquinhos, fomos prestando atenção ao ritmo e ao tempo de cada um e fomos acertando o passo nesta dança da vida que nos obrigou a todos a repensar.

Os dias fluíram entre tarefas, gestão das obrigações, birras, invenções e um carrossel de emoções. Os dias viveram-se num tempo a que não estávamos habituados a ter só para nós.

Vocês estavam mais felizes do que nunca, sem perceberem muito bem porque deixaram de ir à escola, de ver os amigos e a professora, de ter o colo dos avós e a rua para brincar. Sabiam que era por causa de um tal Corona que pode fazer muito mal a todos nós, principalmente às pessoas com mais idade.

Com a vossa sabedoria de crianças, aceitaram e renderam-se ao momento.

Juntos, construímos esse tempo e espaço onde nunca tínhamos estado antes. E se, por um lado, isso trouxe algum desconforto, por outro tenho a certeza que foi um lugar que, por mais anos que viva, nunca iremos esquecer.

Sabem porquê?

Porque foi nele que nos redescobrimos também. A cada um de nós individualmente e a todos, enquanto família.

Que nos despimos de tudo o que também faz parte de nós e da nossa vida, mas que de certa forma não nos pertence verdadeiramente.

Este momento tornou isso bem claro. O tempo das coisas parou e percebemos que a vida são as pessoas, as nossas pessoas.

Um dia quando crescerem e tomarem consciência de que fizeram parte desta "história", irão entender de forma mais clara, aquilo que o vosso coração "pequenino" já sabia mas que a maioria dos adultos já se tinha esquecido e que talvez tenha relembrado por estes dias.

Custa-me a acreditar que haja alguém que esteja exatamente igual ao que era antes de tudo isto começar. Eu não estou certamente.

E, quero confessar-vos que, agora, que se aproxima o dia de sairmos da nossa bolha volto a sentir medo. Por mim, por vocês, por todos nós.

Mas não é nisso que quero pensar agora. Agora quero apenas agradecer-vos por tudo o que me ensinaram nestes dias...

  • Obrigada por me terem ajudado a perceber que as coisas podem esperar, mas vocês não
  • Obrigada por me permitirem olhar-vos de mais perto e ver-vos crescer tal como são, com as vossas qualidades e defeitos
  • Obrigada por me terem dado oportunidade de perceber que continuo a conseguir reinventar-me e a multiplicar-me mais do que imaginava
  • Obrigada por me terem ensinado que um dia feliz pode ser feito de muita brincadeira
  • Obrigada por me terem mostrado que não precisam de uma mãe perfeita mas de uma mãe disponível
  • Obrigada por me ajudarem a repensar onde deve estar o meu foco e a minha atenção
  • Obrigada por poder ver o brilho dos vossos olhos e o sorriso de cumplicidade
  • Obrigada por me mostrarem que as aprendizagens significativas também se adquirem na terra, na cozinha, no ouvir dos pássaros e num "nada para fazer"
  • Obrigada por me fazerem dar mais valor ao silêncio
  • Obrigada por me mostrarem que às vezes o menos é mais e que é na simplicidade que moram as memórias mais felizes
  • Obrigada por me fazerem descobrir que tenho na cabeça um manual de ideias criativas que nem eu própria sabia que tinha
  • Obrigada por me confrontarem com as minhas emoções menos simpáticas, mas necessárias para reconhecerem os meus limites e os limites que a vida nos exige
  • Obrigada por me saberem perdoar nos momentos em que não consigo ser tudo isto
  •  Obrigada por me permitirem perceber que por mais injustos que possamos ser uns para os outros às vezes, podemos sempre recomeçar com um pedido de desculpa e uma nova atitude
  •  Obrigada por me fazerem recordar que o meu colo será sempre um lugar seguro, onde não há mal que não se cure e que por mais que cresçam, podem sempre lá voltar
  • Obrigada pelos momentos difíceis, que fazem parte da vida que eu escolhi
  • Obrigada por me ensinarem a amar-vos ao vosso ritmo... no aqui e no agora porque não sabemos se existe o depois
  • Obrigada por termos aprendido que juntos podemos ser sempre melhores e mais fortes e que o melhor da vida é ter—vos aqui!
Obrigada por me darem coragem para continuar sempre. 

Em breve sairemos da nossa bolha, mas a história não acaba aqui. Agora é aquela parte da história em que continuamos a fazer tudo aquilo que aprendemos juntos nestes dias.

Nos dias em que o mundo das coisas parou.

Mas em que o amor cresceu.

Com regras e com amor,

A vossa psicóloga,
Ana Trindade





2 comentários:

  1. Texto lindo e tão verdadeiro....Parabéns. beijinhos para todos

    ResponderEliminar
  2. Adorei o texto, como adoro tudo que você escreve beijinhos para os 5

    ResponderEliminar