Terrible Two

2.5.18
Queridos Pais, família e amigos,

Já tenho dois anos.

Conseguem ver como já estou um crescido?

As minhas pernas acompanham-me na exploração de todo um mundo por descobrir, o meu vocabulário aumenta dia após dia, permitindo-me comunicar com os outros cada vez melhor, sendo capaz de expressar os meus desejos e as minhas necessidades para que possam ser atendidas. A minha coordenação motora deixa-me fazer coisas que são muito divertidas para mim tais como correr e saltar. É nesta descoberta de mim e do mundo que ganho cada vez mais consciência de que sou um ser único e individual, ou seja, não sou uma continuação da mãe. Mais para o final, começo a referir-me a mim próprio na primeira pessoa do singular, afirmante perante todos que EU existo.

Look | Zara 


Começo também a perceber que para além de mim, existem os outros, mas acho que o mundo serve para me satisfazer e que as coisas têm de ser como eu quero. Sim, é verdade, também já tenho vontade própria e sei dizer o que quero e o que não quero, o que gosto e o que não gosto, mesmo que vocês não concordem comigo, como acontece tantas vezes…

Estas minhas descobertas, fazem com que me torne mais independente e autónomo, querendo fazer e experimentar as coisas por mim…no entanto, nem sempre estou preparado para o fazer sozinho. Tomo consciência das minhas limitações e isso deixa-me zangado.

É por isso que, mesmo que queira ir sozinho a algum lado, preciso que venham comigo. Mas que me fiquem só a ver. Preciso de vocês mais do que nunca! Preciso que a vossa segurança me faça acreditar em mim! Preciso que a frase “Eu consigo” se junte a tantas outras que já aprendi. Deixem-me perceber o que sou ou não sou capaz, preciso de experimentar, de cair e de aprender a levantar-me! Vou descobrir que existe uma coisa que se chama causa-efeito e que se eu fizer uma coisa, isso terá um determinado resultado. É por isso que começo a achar graça em deixar cair coisas para o chão de propósito. Percebo que a partir de algo que faço, acontece alguma coisa. A noção de consequência será muito importante para o meu futuro.

Sabem, o confronto entre o que quero e o que não consigo fazer conduz-me a tempestades existenciais.

Look | Be Chic



À medida que vou sendo capaz de controlar a minha vontade de fazer chichi e cocó e de fazê-lo no sítio adequado, percebo que consigo controlar as minhas vontades e que tenho capacidade para gerir o que se passa no meu corpo. Ainda não sei muito bem é como é que isso se faz.

Por falar nisso, sinto muitas vezes coisas estranhas dentro de mim…ouvi dizer que se chamam emoções. Não sei bem o que isso quer dizer, só sei que umas fazem-me chorar, outras fazem-me gritar, outras fazem-me dar muitas gargalhadas, outras faze-me correr para o vosso colo à procura de proteção. Preciso que me levem a sério, e que me digam o nome de todas elas quando as estou a sentir e me expliquem porque as estou a sentir. Só assim poderei reconhecer as minhas emoções e as dos outros. Sei que isso fará de mim uma pessoa melhor e mais sociável.

Preciso também que me ensinem como devo conduzir estas emoções. Não sei o que fazer quando não consigo o que quero. Então choro, grito, mordo, bato, atiro-me para o chão e depois parece que entro para um labirinto de onde sinto que não consigo sair sozinho. Isso faz-me sentir ainda mais assustado. Se me ajudarem a controlar os meus impulsos, vou aprender a acalmar-me e a encontrar uma solução. A minha agressividade é a manifestação da minha incapacidade para lidar com o que estou a sentir e a pensar, não é nada pessoal contra vocês. Deixem-me expressar o que sinto, mas com limites. Preciso de perceber até onde posso ir. Abracem-me, segurem-me na mão, coloquem-me no quarto por um bocadinho para que a parte do meu cérebro racional me faça sentir disponível para vos ouvir.

Por vezes vocês não sabem como agir comigo nesses momentos. Dizem muitas vezes que estou a fazer birra e sei que por cansaço e desespero às vezes também gritam comigo e me dão uma palmada. Há dias em que parecemos 3 bebés lá em casa.

Sei que estão a dar o vosso melhor, e também a aprender a gerir as vossas emoções comigo, mas há atitudes vossas que não me ajudam a crescer de uma forma saudável e a saber como agir da próxima vez que não me fizerem a vontade.

Como dizia um Doutor muito conhecido, na minha idade a disciplina faz-se olhos nos olhos, mão na mão e ombro a ombro. Vale a pena que me expliquem as coisas com as palavras, para que, com o tempo, o seu significado seja entendido mas preciso que me peguem pela mão, pelos ombros para me travarem de alguma ação indesejada, que me peguem ao colo, que me abracem e me expliquem o que se passa comigo e o que pretendem de mim. Quando eu pedir alguma coisa que não pode ser, não digam só que não, expliquem-me porquê, dêem-me alternativas, promovam a minha capacidade de escolha e de responsabilização pela minha escolha, e sobretudo não me humilhem. Como se iriam sentir se, no trabalho, o vosso chefe dissesse à vossa frente, a todos os colegas que vocês fizeram alguma coisa mal



Quero pedir-vos que não cedam às minhas manipulações e chantagens, tenho de aprender que nem sempre posso ter o que quero e que o mundo afinal não existe só para me satisfazer a mim. Isso pode custar-me muito ao inicio, mas depois irei tornar-me mais tolerante e criativo, encontrando outras soluções.

A propósito da palavra “Não”, sei que vou precisar de a ouvir muitas vezes para que me ensinem o que é certo e errado para mim e o que são os limites. Mas cuidado com a forma como a usam, não vá isso virar-se contra vocês um dia. Procurem proporcionar-me situações ou alternativas em que o Sim é possível. Saber o que esperam de mim é tão ou mais importante do que saber que estou a fazer mal.

Desculpem o meu egoísmo por vezes, parece que a fase em que estou é marcada por uma palavra grande e esquisita que se chama egocentrismo, ou seja, a minha incapacidade para compreender o ponto de vista dos outros, porque para mim o único que existe é o meu. Mas mais para a frente, vou ser capaz de conseguir fazê-lo e tudo o que aprender agora será essencial para a minha personalidade.

Ah, esqueçam aquilo do “ele é pequenino, não percebe ou não está a ouvir”… sou muito atento e observador e tudo aquilo que aprendo é com base no que vos oiço dizer e no que vos vejo fazer.

Também vos quero dizer que as rotinas são cada vez mais importantes para mim, saber o que vai acontecer a seguir transmite-me mais segurança e mais tranquilidade.

Não será uma fase fácil para mim nem para vocês, pois muitas mudanças estão a acontecer no meu cérebro e por isso, na forma como penso e como atuo. Precisamos todos de entendê-las e adaptarmo-nos a elas… Mas com muita paciência, com regras e com amor, vão ver que o final será mais fácil do que o início. 

A vossa psicóloga

Ana Trindade
Look | Matchy
Pés de Cereja 


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