Os danos colaterais na futura geração

28.7.20
Aí Covid...Covid...

Já nos deu tanto mas já nos tirou outro tanto.

São tempos difíceis e sem previsão para voltarmos ao antigamente.

O fácil passou a ser difícil e o difícil a impossível. A acessibilidade das pessoas tornou-se nula. E se antes tratar de um assunto burocrático já trazia dissabores agora é como um um túnel sem fim.

O adquirido dissipou-se e a desconfiança vingou nos nossos olhares.

A minha geração atravessa a segunda crise financeira. O tempo é incerto e há quem diga que o pior ainda está para vir.

Mas a geração dos meus filhos atravessa uma das maiores crises sociais que alguma vez vi. E isso preocupa-me mais que qualquer coisa.

Não quero que o vírus lhes tire valores como: a partilha, amizade, empatia e entreajuda. Não quero que os afaste da emoção ao toque e no olhar.

Quero que isto passe por eles sem meter em causa a sua personalidade. Quero que permaneçam com a ingenuidade de crianças.

Espera-se que uma criança faça amizades de olhos fechados, que brinquem, que partilhem brinquedos e que dêm as mãos.

Mas depois existe um vírus que os afasta, que os isola e que lhes mostra que tudo o que apregoávamos deixou de certo o certo.

Aqui não existe o certo ou o errado. Existem sim formas diferentes de encarar o problema. E se existem pais que isolaram as crianças, outros permitem, apesar dos cuidados de higiene exigidos, que os seus filhos continuem a ser crianças da forma mais natural possível.

Eu faço parte dos segundos pais. Embora tenham deixado a escola nesta fase continuam a brincar com crianças e até já fizeram amizades de verão e eu permiti. E para quem não concorda (eu respeito) mas desculpem-me eu não tenho capacidade emocional para lhes dizer para não brincarem. 

O vírus é invisível e para mim uma roleta russa. Pouco ou nada se sabe dele, ninguém está livre de o apanhar e é impossível de o controlar. 

Ou melhor existe uma forma de o fazer mas passa por nos enclausurarmos em casa e para mim, vivermos confinados será sempre o último recurso.

É confiar também na sorte, sair de casa, mantendo os cuidados de higiene e segurança, privilegiar o ar livre, sem meter eu causa a nossa liberdade.

Na praia, já vi pais que afastam os seus filhos, que não deixam brincar e outros que deixam brincar sem medos.

Ainda este fim-de-semana o meu Francisquinho, estava a brincar com uma criança, o pai apareceu e começou a brincar exclusivamente com o seu filho ignorando o meu por completo. Fez a roda com o seu filho e como criança que é o FM também lhe pediu o mesmo, mas o que ele ouviu foi um não redondo, insistiu uma vez mais e o não manteve-se. Naquele instante vi o olhar do meu filho transformar-se num olhar triste. Nada lhe foi explicado, apenas ouviu um não por algo tão simples como o direito de brincar.

Não é por ser meu filho ou não mas sim por roubarem o brilho a uma criança sem qualquer explicação. Somos nós os adultos! A obrigação é nossa em explicar pois a nossa consciência é superior às deles. Aquela atitude pode ser por zelo e até compreendo mas recusar sem qualquer explicação para mim é ser-se insensível.  

E são estas "pequenas" atitudes que vão criar danos colaterais nesta nova geração. Hoje ninguém pode ver mas daqui a uns anos vamos pagar tudo isto.

E aqui desculpem-me, a culpa não é meramente do vírus mas sim pelo egoísmo e da falta de sensibilidade humana. 

Mais Amor! Mais compreensão pelo próximo! Não por mim mas por uma sociedade mais feliz.





3 comentários:

  1. Desculpe mas desta vez não posso concordar totalmente consigo...
    É certo que pode escolher, com os seus filhos, que eles mantenham o convívio com o sacrifício das regras de segurança e higiene! Não me parece é que, quando a dgs recomenda que nao haja convívio entre agregados familiares diferentes, possa apontar o dedo ao pai daquela criança por 1. Nao querer que o filho dele brinque com o seu e 2. Nao brincar ele mesmo com o seu filho...
    Desde logo porque as pessoas tem visões diferentes quanto ao respeito pelas regras e depois porque nao sabe se em casa desse senhor nao esta outro filho recem nascido que teria um risco superior caso apanhe, uma criança ou adulto imunocomprometido, um idoso, uma mulher grávida que precisem de mais proteção...
    Lamento muito que o Francisco tenha ficado triste, mas ninguém tem o dever de se expor a si e a sua família a uma doença desconhecida...

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    1. Existem sempre duas leituras de ver a situação em que enfrentamos. Estamos todos a adaptar-nos. Eu não condeno aquele pai não ter brincado com o meu filho, primeiro porque está no direito de não querer, segundo porque pode não querer por causa do vírus. Mas no caso de ser pelo vírus podia ter dito que não e explicado... são crianças e como tal não vêm a consciência dos adultos. No entanto os nossos filhos brincaram e não se opôs.

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