A nossa casa a nossa primeira escola

25.9.18

"Lisboa, segunda feira, 8:30 da manhã, hora em que está marcada a saída de casa. A mais nova, com um aninho, ainda ao colo, choraminga, não tirando os olhos da mãe. Parece pressentir que chegou o momento de trocar a casa da avó pela creche. O mais velho arrasta uma mochila de rodinhas, carregada de medos e de curiosidades sobre a nova etapa da sua vida. Dali a alguns minutos, os seus três aninhos irão valer-lhe para enfrentar um espaço, já visitado, mas ainda tão desconhecido e com tantas novidades para assimilar.

A mãe e o pai, para além da marmita, carregam um aperto que parece não caber no peito, e um nó no estômago de quem enfrenta o medo da vida.

O relógio que não para, acelera os pensamentos e os movimentos para que possam chegar a tempo da hora combinada para o acolhimento na nova escola… o pai fica com o mais velho, a mãe não arreda pé da mais nova.

Hoje, excecionalmente, os pais poderão levar as crianças às respetivas salas, e ver mais uma vez de perto, os espaços, os adultos e as crianças que irão partilhar brincadeiras e aprendizagens com os seus filhos. O momento da despedida chegou: à mais nova, um beijinho discreto depois de uma pequena brincadeira com a mãe no tapete da sala, ao mais velho, um abraço carinhoso e as duras mas firmes palavras “a mãe vem buscar-te antes do almoço, vai correr tudo bem”. A adaptação será progressiva: as crianças ficam só o período da manhã, depois introduz-se o almoço, depois o lanche, e no final da semana já são as crianças a pedir para ficar mais um bocadinho na escola.

Pai e mãe encontram-se novamente no carro, um abraço apertado e silencioso que se falasse diria o quanto é bom e ao mesmo tempo difícil ver os filhos crescerem e voarem pelas suas próprias asas.

Nenhum telefonema da escola, apenas os sorrisos no momento do regresso a cassa. Nesse dia, tudo correu bem. Nesse dia todos foram para a cama cedo, com a certeza de que o dia seguinte iria ser um bocadinho menos difícil. E assim foi durante toda a semana. Pais e filhos ficaram um bocadinho mais crescidos durante aqueles dias".


Esta tem sido a realidade de muitas famílias nas últimas semanas. Muitos pais identificar-se-ão com este cenário, para outros, o cenário foi bem mais trágico, com muito choro à mistura. E nos dias seguintes ao fim de semana, a tendência é sentir que os passos que todos deram em frente, parecem voltar para trás.

O processo de adaptação à creche e escola, para algumas crianças é mais rápido, para outras é mais lento.

Existem alguns fatores que facilitam uma adaptação e integração positiva das crianças e dos pais á nova realidade:

A idade certa

Não é possível indicar a idade ideal para a entrada na creche ou no jardim de infância. Quando a criança deixa de depender do leite materno e começa a introduzir os alimentos, a ida para a creche é uma opção, embora muitos bebés se estreiem ainda durante o período de amamentação. Pela questão afetiva e da vinculação, quanto mais tempo as crianças puderem ficar com a mãe ou com outros cuidadores da família que respeitem as necessidades e etapas do desenvolvimento do bebé e da criança, mais nutrida a mesma ficará. Todavia, não existem dados que indiquem que a entrada para a creche esteja associada a experiências negativas para os bebés, tal como concluiu um estudo do National Institute of Child Health and Human Development (Estados Unidos), que seguiu mais de mil bebés e crianças com idades entre um mês e os quatro anos e meio, entre 1991 e 2007. O mesmo estudo parece indicar que não foram encontradas diferenças de desenvolvimento entre as crianças que ficaram ao cuidado das mães e as que receberam cuidados externos desde tenra idade.

Assim, o mais importante para a criança é que quer no contexto familiar, quer numa creche e/ou jardim de infância, os cuidadores, respeitem as suas necessidades e acompanhem as etapas de desenvolvimento dos bebés e/ou crianças, estimulando-as tendo em conta o seu ritmo e características.

A escolha do local

Um passo importante para a adaptação é a escolha da creche ou do jardim de infância. Por vezes, essa escolha é possível, de acordo com a idade do bebé/criança e de acordo com as possibilidades financeiras, outras vezes, os pais têm de aguardar em lista de espera ainda antes do bebé nascer, tendo que se limitar às vagas existentes nas creches e jardins de infância públicas, privadas ou público-privadas.

Quando é possível escolher, há alguns aspetos a ter em conta, tais como: a proximidade da zona de residência ou do trabalho para evitar um maior stress matinal e no final do dia e para estar perto caso haja alguma urgência; a organização dos espaços da creche/JI, a existência de espaço de recreio exterior, o projeto educativo, a filosofia e práticas pedagógicas da instituição, as rotinas das crianças estarem bem definidas, a afetividade dos educadores e auxiliares de ação educativa, a confiança e a empatia para com os profissionais que passarão mais tempo do dia com as crianças do que os próprios pais e a articulação e abertura do espaço aos pais e restante família.

O ideal é visitar alguns locais antes de decidir, prestar atenção a estas questões, sentir o ambiente e confiar.



Vencer a culpa

Uma das maiores dificuldades da adaptação dos pais e filhos à nova realidade é o sentimento de culpa dos pais, especialmente da mãe pelo facto de ter de deixar aquele ser tão seu e tão pequenino aos cuidados de pessoas inicialmente estranhas e que nada sabem sobre o seu bebé. Serão capazes de cuidar dele tão bem como eu? Estarão atentos às suas necessidades? Darão colo tantas as vezes que o bebé precisar? Vão mudar a fralda, pôr a pomada, garantir que ele come e dorme? Não é o meu dever enquanto mãe estar a cuidar e a proteger o meu bebé?

São vários os medos e as inseguranças que ocupam os pensamentos dos progenitores nos primeiros tempos. Aceitar que tudo isso é normal e que com o tempo tudo irá serenar, facilita o processo. Os pais precisam de algumas provas de confiança e de sentir que apesar do momento em que deixam os seus filhotes poderão haver algumas lágrimas mas quando regressam ao fim do dia para ir buscar, o seu filho comeu e dormiu ótimamente, brincou e ainda se despede com um sorriso e um beijinho aos amigos e à educadora.

Enquanto estas ansiedades não são ultrapassadas, na maioria das vezes, elas passam para as crianças, que acabam por absorver o sentimento que sentem por parte dos pais. As despedidas são um exemplo disso. É determinante que as despedidas sejam curtas e vividas com naturalidade, explicando-se às crianças que se vai trabalhar. Indicar a pessoa e o momento concreto em que se irá buscar a criança ajuda a trazer mais segurança e tranquilidade (por exemplo, “a mãe vem buscar-te depois do lanche” ou “o avô vem buscar-te depois da aula de ginástica”).

A adaptação progressiva (numa escala de tempos progressiva em que a criança fica na escola) é também um fator adaptativo e para algumas crianças mais ansiosas, poderá também fazer sentido a utilização de um objeto transitório, ou seja, um objeto ou brinquedo de casa ou da mãe que a criança goste e possa levar para a escola para que se sinta mais acompanhada e segura.

Algo que é importante evitar é perguntar à criança se quer ir à escola, sendo que essa decisão não compete à criança e sim aos adultos. Ao fazer essa questão está a dar à criança o poder de dizer que não quer ir e depois terá de lidar com as consequências. É mais organizador para a criança, que o adulto defina as rotinas e seja coerente com as mesmas. Explicar-lhe o motivo pelo qual ela tem de ir à escola e os motivos pelos quais é bom ir à escola irão facilitar a integração e ajudá-la-ão a crescer.

Conexão com a escola

Sentir que a creche e/o jardim de infância são a segunda casa do seu filho e sentir-se parte envolvente daquele espaço é essencial para que a criança sinta que pode confiar, sentir-se bem e disponível para aprender e crescer naquele local.

Permitir essa conexão é algo simples, sendo que é necessário que aceite que por vezes terá essa disponibilidade, e outras vezes não e está tudo certo na mesma. Mais vale uma colher de sopa, do que sopa nenhuma, ou seja, mais vale estar presente quando e como pode, nem que seja pontualmente, do que achar que não tem tempo nem vida para isso, ou que não é esse o seu papel, desligando-se das vivências que o seu filho tem na escola.

Participar nas atividades e festas da escola, querer saber o que o seu filho fez, aprendeu, descobriu, cantou, brincou na escola e pedir para que repita, participar nas reuniões, colaborar em atividades ao longo do ano, fazer voluntariado na sala caso a instituição o permita, ir contar uma história à sala, falar sobre a sua profissão, enviar fotografias sobre o fim de semana da criança, convidar os amigos da sala do seu filho para um lanchinho fora da escola, são alguns exemplos.

Um dos pilares desta conexão entre a escola e a família é a comunicação. Quer seja a direta, quer seja a indireta, isto é, é importante que haja uma comunicação permanente clara e eficaz entre os profissionais da escola e a família sobre as diferentes áreas da vida da mesma. Partilharem aspetos sobre a personalidade, os hábitos, gostos e interesses e sobre o dia a dia da criança é uma comunicação direta e que irá contribuir para um desenvolvimento mais harmonioso da criança. A comunicação indireta tem a ver com tudo aquilo que os pais dizem entre si e a outras pessoas sobre a escola, sobre os profissionais e sobre as outras crianças, e que apesar de parecer que a criança não está a prestar atenção ou a perceber, a verdade é que está a absorver tudo e a integrar na sua visão e emoções que tem sobre a escola. Preste alguma atenção ao que verbaliza em frente do seu filho sobre a escola, pois, sem se aperceber, poderá estar a influenciar o comportamento do seu filho perante a mesma.

Muito mais haveria a dizer sobre a entrada na creche e no jardim de infância, contudo o importante a reter é que seja qual for o tempo de permanência da criança numa creche, no jardim de infância ou na escola, o desenvolvimento da criança será sempre mais influenciado pelas características parentais e da família do que pela instituição que lhe deverá garantir, de forma geral, a curiosidade e o gosto por aprender, facilitar os processos de socialização e o respeito pela sua individualidade.

“Para que a escola seja a segunda casa, a casa tem que ser a primeira escola”

Com regras e com amor,

A vossa psicóloga,

Ana Trindade


Mochilas | Mmi

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