Pote das ideias

5.11.19
E quando é preciso ter tempo e ideias para tudo e para todos, planear o dia dos miúdos, ter um plano A, um plano B e muitas vezes um plano C, já para não falar das birras, discussões, tarefas domésticas, e ainda assim, ter que ter um colo sempre disponível para qualquer hora do dia...

O dia a dia das famílias é feito de vários e constantes desafios dignos de uma medalha olímpica para todos os intervenientes em que os principais vencedores, na verdade, são mesmo as crianças.

Por muita que seja a criatividade, a paciência e o amor, por vezes torna-se difícil responder a todos os desafios de forma a que o coração de mãe e de pai se sinta 100% orgulhoso nesta tentativa de bem educar e de fazer um filho feliz. Naturalmente, surgem dúvidas e medos de falhar no seu papel de pais. E nos filhos, seguramente, crescem também inseguranças que nascem de um distanciamento cada vez maior em relação aos seus pais e a outras figuras de referência familiar.

O ritmo do dia a dia quer dos pais quer das crianças, as crenças que construímos sobre a parentalidade e a educação, o excesso de tempo e de energia dedicado ao trabalho e o stress têm levado os pais a esquecerem-se de conjugar verbos importantes para um crescimento saudável das crianças, tais como o esperar, o experimentar, o tentar, o pensar, o resolver, o ser e o sentir. Por falta de tempo, de paciência ou como uma compensação da sua ausência física e muitas vezes, emocional, os pais pensam e agem pelas crianças, comprometendo a sua autonomia, a sua criatividade, a sua capacidade de gerir emoções e a expressão do seu ser. Torna-se mais rápido e mais fácil agir por eles. Será?

Com frequência, nós adultos, tentamos encontrar soluções para os problemas das crianças ou investimos vários esforços para que as situações nem ocorram, passando-lhes indiretamente a mensagem de que há sempre alguém que irá resolver as coisas por eles, ao mesmo tempo que, espelhamos a ideia de que eles não são capazes de fazer o que o mundo lhes pede para fazer. Isto tem impacto na (falta) de autonomia das crianças, assim como na (in)capacidade para refletir e encontrar soluções, de criar empatia, de gerir as suas emoções e entendê-las no outro. Estas questões têm preocupado cada vez mais os especialistas na área da educação e do desenvolvimento da criança e do adolescente. Cada vez mais se observam crianças e jovens com ataques de pânico e de ansiedade, com depressões em idades cada vez mais precoces, dificuldades no relacionamento com os outros, com uma auto estima mascarada de um rei que na verdade se sente sapo. A criatividade e a energia canalizam-se para um aparelho que quando termina a bateria leva qualquer um a um estado de birra.
Vejamos estes exemplos: quando há um conflito em casa entre irmãos, tenta perceber o que originou a discussão? Tenta perceber o que sente cada uma das partes envolvidas e incentiva a que os irmãos conversem e encontrem uma solução por eles? Ou o foco está em encontrar um culpado para aquela situação, uma forma de castigar esse culpado e encontrar um penso rápido para a situação, como um “peçam desculpas um ao outro” ou “vão para o vosso quarto pensar no que aconteceu”. Aos fins de semana o tempo é ocupado sempre da mesma forma, ou as dinâmicas são diversificadas? Todas as pessoas da casa são ouvidas quando é preciso decidir alguma coisa, nem que seja como vai ser aproveitado o sábado? Quando alguém está triste, zangado ou comete um erro, como agem de forma a respeitar e a ajudar quem foi visitado por essas emoções?

Nem sempre é fácil ter soluções para as situações que surgem a toda a hora e viver é aprender a encontrar aquelas que são mais ecológicas e saudáveis para cada um e para cada família. Para isso é importante a tomada de consciência de como estamos e para onde queremos ir.

Mergulhados em todos estas solicitações da vida, os pais perdem muitas vezes o brilho e o foco no papel mais bonito que a vida lhes proporcionou que é o de ajudar um ser a crescer e a tornar-se pessoa e, em poder transformar-se juntamente com ele.

A proposta de hoje tem como objetivo ajudar a desenvolver os aspetos referidos em cima de forma a aproximar os vários elementos da família, diversificar as estratégias e dinâmicas familiares e a retirar o foco da resolução das situações das crianças pelos pais, convidando-as a conseguirem encontrar mais autonomamente estratégias para lidarem com as situações nos seus diferentes contextos. Logicamente que as crianças precisam de ser ensinadas a pensar e a ir buscar os seus recursos internos que, poderão precisar de alguns ajustes. Criar estas oportunidades de partilha e de reflexão conjunta, em que todos contribuem com ideias para a harmonia da casa, é um grande passo para melhorar o desenvolvimento das crianças. E já agora, dos adultos também, afinal aprendemos mais juntos do que sozinhos e as crianças têm muito para ensinar aos adultos. 



O POTE DAS IDEIAS - COMO FAZER?
  • Em casa, convoque uma reunião familiar para criar o pote das ideias. Poderão utilizar uma caixa, um frasco, aquilo que quiserem e ajustar o nome de acordo com o material que escolherem. A decoração fica ao critério de cada um, desde que todos saibam identificar o/s pote/s.
  • O pote das ideias poderá ser geral ou poderão fazer vários potes com temas específicos. Por exemplo, poderão definir um pote com ideias para haver paz em casa, ideias para resolver conflitos, ideias para passar o tempo, ideias para cuidar das emoções, ou colocar tudo no mesmo pote e ir tirando, de acordo com a ideia que precisarem no momento que o pote for aberto. Decidam o que fizer sentido em vossa casa, sendo que os temas sugeridos são ótimas ideias para começar. 
  • Para cada tema que escolherem, todos deverão dar sugestões (crianças e adultos) que deverão ficar registadas em tirinhas ou papelinhos, quer por escrito, quer em desenho, de acordo com as idades das crianças e colocá-las dentro do frasco/caixa, etc. Cada ideia é colocada numa tira de papel. É importante colocar o pote numa zona que esteja acessível a todos para que cada um possa utilizar quando achar que precisa. 
Por exemplo: No pote das ideias para cuidar das emoções, identificar as emoções difíceis que surgem mais vezes em casa (raiva, medo, frustração, tristeza, ciúmes, saudade), e registar as ideias que surgirem para gerir de forma saudável cada uma: dar um abraço a alguém, chorar sem vergonha, respirar fundo e contar até 10, ouvir música calma, ir dar um passeio, conversar sobre o que me deixa zangado/triste, fazer um desenho, tomar um banho de imersão, pensar coisas positivas, ler uma história, etc.
  • O pote pode ser completado sempre que surgirem novas ideias sobre os temas que decidirem para os vossos potes.
  • Os potes deverão ser abertos sempre que alguém da família precise de ajuda para lidar com uma situação que para si está a ser difícil ou simplesmente porque precisam de uma ideia para algo para fazer naquele fim de semana. Os pais podem lembrar as crianças de ir ao pote quando perceberem que as crianças não estão a conseguir lidar com alguma situação. Pode ser muito útil também para os adultos. 
Com o tempo e à medida que o leque das estratégias começar a ser integrado por cada um, pretende-se que os potes sejam menos vezes abertos, uma vez que as soluções começam a surgir mais espontaneamente. Poderão sempre decidir se querem construir novos potes para outros temas que surjam na família.

Partilhem connosco os potes que construírem em família.

Com regras e com amor,

A vossa psicóloga,





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