Parentalidade (In)consciente

1.11.18

Ama-me mais quando menos o mereço. É aí que mais preciso” 
(provérbio sueco) 

Sente-se num local calmo e pare um pouco. Feche os olhos. Preste atenção ao ar que entra e que sai pelo nariz. Permita-se esquecer de onde está, de como foi o dia, das tarefas que ainda tem de fazer. Sinta só a sua respiração. Imagine que os seus pensamentos são barcos num rio que corre. Deixe-os fluir. Não entre em nenhum desses barcos, não se apegue a nenhum pensamento. Entre em contacto consigo. Fique assim o tempo que desejar. Quando se sentir calmo/a, faça-se as seguintes perguntas: “Quais são as minhas intenções enquanto pai/mãe? Que tipo de pai/mãe quero ser para os meus filhos?”, “Em que momentos eu e os meus filhos somos felizes?”.
Se fizer sentido, registe num papel as respostas que surgiram e guarde-o num local acessível para que possa recordar sempre que quiser.

Sobre a Parentalidade (In)consciente

Passamos muito tempo da nossa vida em piloto automático. Entre as rotinas e o percurso casa - escola dos miúdos – trabalho - escola dos miúdos – futebol – natação – casa (na versão mais reduzida), achamos que sobra pouco tempo e energia para prestar atenção aos padrões de comportamento individuais e parentais, aprendidos ao longo da vida. Digo achamos, porque na verdade há sempre tempo.

Empurramos para debaixo do tapete, encontramos causas exteriores para justificar o que não está a correr tão bem nas nossas vidas e no comportamento das crianças que teima em não melhorar. As coisas lá vão andando, disfarçadas pela tomada da medicação que aumenta cada vez mais nos miúdos e nos graúdos.

As escolhas que fazemos (ou não fazemos) e os padrões comportamentais que mantemos têm consequências na nossa vida. No que diz respeito à parentalidade, a história repete-se e intensifica-se, tendo um impacto imediato na educação das crianças, na relação que se estabelece com os filhos e na formação da personalidade dos mesmos.

Cada um ensina aquilo que é, e mesmo que tente ser uma coisa que não é para os seus filhos, rapidamente eles vão sentir e perceber isso, o que terá um impacto negativo na relação que irão construir. Uma criança respeita e valoriza as pessoas que admira e que são congruentes entre o seu discurso e as suas ações. Isso transmite-lhes segurança e confiança, ingredientes determinantes para um desenvolvimento socio emocional saudável e para o estabelecimento de vínculos fortes e positivos.

Este caminho na tomada de consciência daquilo que se é enquanto pai/mãe de uma criança, está na base da parentalidade consciente. Este conceito, influenciado pelas teorias do vínculo e da autodeterminação descendentes da psicologia e pelos princípios do mindfulness (atenção plena), está muito mais ligado a perguntas do que a respostas. Assenta no questionamento sobre as crenças, ideias, hábitos, valores e comportamentos que aprendemos ao longo da vida e que muitas vezes integramos sem refletirmos sobre eles, perpetuando-se naquilo que transmitimos aos nossos filhos. Assim, “a parentalidade consciente é muito mais sobre desaprender do que sobre aprender”.

Em jeito de exemplo, vejamos as seguintes situações: A maioria das famílias, força as crianças a comerem sopa nas refeições porque para a sociedade isso é o certo. E se para o seu filho, esse momento da refeição for sempre uma situação de conflito e de tensão? Será que vale a pena insistir? Em vários países, as crianças não comem sopa à refeição, havendo outras formas de introduzir os legumes na alimentação das crianças.

Quando a criança rejeita dar dois beijinhos a pessoas que acaba de conhecer, isso é encarado por si com tranquilidade ou sente-se posto em causa relativamente à educação que dá aos seus filhos? Pense no que acontece consigo. Sente-se sempre confortável ao cumprimentar na face as pessoas que conhece? Provavelmente a resposta é não e com certeza que com algumas pessoas estende instintivamente a mão em vez de estender a cara.

Com as crianças é a mesma coisa.

A questão é que com as crianças, temos tendência para olhar para o comportamento e não para a sua causa. Recuemos um pouco à infância: quando os bebés choram, enquanto pai/mãe tenta perceber a origem do choro: se é fome, sono, se a fralda está suja, se está um ambiente demasiado barulhento, se há uma necessidade de aconchego, etc. Ao identificar a causa, tenta satisfazer as necessidades do bebé, acabando este por se acalmar e o choro termina. É assim que a conexão entre pais e filhos se constrói e se fortalece. Por esta altura, o seu foco são as necessidades do bebé e prevalece uma relação empática com o seu filho, colocando-se frequentemente no seu lugar e tentando responder às suas necessidades para que se sinta bem.

“A partir dos 18 meses, aproximadamente, a pergunta essencial deixa de ser o «porquê» e passa a ser o «como». A principal preocupação começa a ser a boa educação e não a curiosidade em perceber qual a necessidade insatisfeita que causa o comportamento.” (Ovén, Mikaela, 2015). É aqui que começa o fosso entre os pais e os filhos e grande parte das birras e conflitos surge devido a este desfasamento.

Assim, à medida que as crianças crescem, a tendência é para deixarmos de olhar tanto para a origem ou causa do comportamento e sim para o comportamento em si, que por norma é alvo de julgamento e de um castigo/consequência. A maioria dos pais foca-se mais em encontrar técnicas e estratégias para controlar ou castigar esse comportamento, do que em identificar as necessidades que não estão a ser atendidas e as emoções que estão por trás de determinado comportamento. 


É aqui que começa o fosso entre os pais e os filhos e grande parte das birras e conflitos surge devido a este desfasamento.

São vários os princípios e pilares da parentalidade consciente. Aqui iremos refletir sobre alguns, podendo aprofundá-los na referência bibliográfica que irá encontrar no final do texto.

Igual Valor

A intenção de praticar uma parentalidade consciente começa por aumentar a consciência e a compaixão em relação a si mesmo e em relação aos seus filhos. Os pais que optam por um estilo de parentalidade consciente acreditam que todos no núcleo familiar têm igual valor, o que significa que as características, opiniões, necessidades e emoções de todos devem ser atendidas de igual forma e têm a mesma importância. Praticar o igual valor não significa que a criança tem sempre o que quer, mas sim que é respeitada da mesma forma que o adulto, sentindo-se compreendida por aquilo que é e pelo que sente. É neste sentido, que a comunicação assume uma enorme relevância.

Comunicação Consciente

Quando está consciente da sua comunicação, está consciente do que comunica, quer com palavras, quer com a postura, tom de voz, expressão fácil, etc. Estar consciente do que diz e como diz, poderá ajudá-la/o a perceber se de facto está a dizer o que quer dizer e de acordo com as suas intenções e necessidades enquanto mãe/pai.

Mensagens-Eu & Comunicação Não Violenta

Quando o seu filho está a insistir em algo que quer fazer e não pode, como lhe devolve essa informação? Quando o seu filho faz algo que não corresponde às suas expetativas, que palavras e tom de voz tem tendência para utilizar? Qual o retorno dessa comunicação que utiliza?

A proposta da parentalidade consciente é que com a utilização de MENSAGENS - EU (colocar o ênfase no emissor e não no recetor) e de um estilo de comunicação não violenta, as crianças sentem-se mais compreendidas e aceites, o que fortalece a relação e a colaboração das mesmas.

Utilizar uma mensagem eu e a comunicação não violenta, significa colocar o foco naquilo que se sente perante determinada situação, expressar a emoção, os factos concretos e aquilo que se espera que a criança faça.

Por exemplo, numa ida ao supermercado, a sua filha pede-lhe um chocolate e naquele dia considera que não lhe deve comprar o chocolate, o que origina uma birra. Utilizando uma mensagem-eu e a comunicação não violenta, poderia dizer “eu sei que gostavas de comer um chocolate e que ficas frustrada/zangada/irritada quando eu te digo que não. Eu também me sinto triste quando te vejo a chorar e aos gritos. Quando chegarmos a casa, vamos poder lanchar as duas juntas. Agora, peço-te que te acalmes, que me dês a mão e me ajudes a fazer as compras.”

Quando utiliza este tipo de comunicação, está também a ensinar os seus filhos a aumentarem o seu vocabulário emocional, aprendendo a atribuir nomes ao que está a sentir e a saber gerir essas emoções, encontrando estratégias construtivas para as ultrapassar. 

Reuniões de Família

Todos os dias, em todas as famílias acontecem coisas importantes e sobre as quais nem sempre é possível falar. Criar momentos para que cada elemento possa falar sobre algo que para si seja importante, sobre as coisas que estão a funcionar ou os aspetos que precisam de ser melhorados, ou simplesmente algo pelo qual se sentem gratos naquele dia, pode ser uma excelente forma de prevenir comportamentos desviantes nas crianças e cuidar das relações familiares. Estas reuniões são uma excelente oportunidade para praticar o igual valor. Os assuntos abordados nas reuniões de família, poderão ficar registados numa folha, ficando num local visível para todos.

Para não esquecer:

A proposta da parentalidade consciente, permite a consciencialização de alguns aspetos:

  • As intenções que tem enquanto pai/mãe e como as coloca em prática; 
  • O comportamento das crianças funciona como um feedback das suas emoções e necessidades - mantenha uma atitude de detetive e identifique o “porquê” mais do que o “como”; 
  • As necessidades e as características variam de criança para criança e as estratégias que os adultos dispõem para lidar com cada criança também varia (tente identificar as suas e as dos seus filhos e as da família e tudo correrá melhor); 
  • Praticar o Igual valor, a paciência, a empatia e o amor incondicional irão ajudar a estabelecer uma conexão maior com os seus filhos e ajudá-los a desenvolver qualidades que ficarão para a vida; 
  • As reuniões em família são uma excelente oportunidade para promover a comunicação entre todos os elementos, a reflexão conjunta de soluções e aquilo que para as crianças é o mais importante, a presença e o tempo em família. 
  • Praticar meditação permite-lhe sentir e observar o seu discurso interno e as questões que para si são importantes e que precisam de ser ouvidas;
  • No desafio de educar uma criança, não há formas certas nem erradas, há diferentes caminhos que levam a diferentes lugares. A proposta da parentalidade consciente é que entre em contacto consigo, e que descubra dentro de si o caminho que pretende percorrer enquanto pai/mãe. Não porque os outros dizem que é o certo. Mas porque o seu coração acredita que sim. 

Com regras e com amor,

A vossa psicóloga,
Ana Trindade





(livro recomendado: “Educar com mindfulness – Guia da parentalidade consciente para pais e educadores”, Mikaela Ovén)


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