A realidade de um confinamento com crianças com necessidades educativas especiais

9.3.21

Sem ninguém nos preparar para tal virámos educadores e professores dos nossos filhos. 

Sem sabermos bem como fazer, enfrentámos a questão de frente e este é talvez um dos maiores desafios para nós pais.

É gerir expectativas, frustrações de ambas as partes, as nossas e as deles, um teste à nossa paciência e até ao nosso saber, que tantas vezes ficou esquecido num passado académico.

E a somar a isto, quando se tem um filho com necessidades especiais tudo fica mais dificultado.

É certo que acompanhamos todo o seu desenvolvimento ao momento, o que é bom, porque ficamos com uma percepção maior do que está adquirido e do que ainda temos de trabalhar.

Tomamos consciência das suas dificuldades e das suas limitações. Frustramos e aplaudimos vezes sem conta.

É um trabalho que exige paciência, que muitas vezes nos leva ao limite e em alguns momentos nos faz duvidar.

O Tomás está a um passo de entrar na primária e não tem sido fácil. O ano em que ele devia estar mais focado, é talvez o que está mais desfocado. 

E se para crianças ditas "normais" se o não fizer, é uma questão de tempo. Para crianças com patologias o discurso não pode ser o mesmo. É uma corrida contra o tempo e não podemos dar-nos ao luxo de o desperdiçar.

Mesmo sem competências para tal, e sem qualquer formação de ensino, arregacei as mangas e fui em frente com tudo o que tinha e o que não tinha. Deixei as lamúrias para outra altura, respirei fundo, olhei-me no espelho, sorri e fui!

Criei um plano de atividades, juntamente com orientação da professora, um horário para cumprir, com momentos de trabalho e livres.

E naquelas quatro horas não existem camas por fazer, roupa para estender e comida para fazer. Todo o meu trabalho é feito à tarde, enquanto ele tem as suas terapias, e pela noite dentro organizo as casa e as refeições. Este foi o meu grande segredo para um confinamento feliz e tranquilo!

Quero muito que esteja a terminar, estou cansada, sinto-os também cansados, e a precisar de toda a componente académica e social que só uma escola sabe dar. Mas ao mesmo tempo sinto que estão felizes e equilibrados, o que me deixa feliz.

Mas não é fácil ver um filho a tentar e a falhar, a tentar e a falhar, vezes sem conta. Nem sempre é fácil aceitar. É necessário muitas vezes deixar cair lágrimas para ganhar sorrisos. Aceitar o "não apetece", dar-lhe tempo para querer, arranjar ferramentas de ânimo e adaptar formas de ensino para cada filho.

E acreditar! Acreditar que vão conseguir!

É uma luta diária. Aqui não existe ele ou eu, existimos nós! Somos uma equipa! E juntos vamos vencer, foi isso que lhe prometi há seis anos.

Todos os dias melhora um bocadinho, e no dia em que ele pegar naquele lápis sozinho, de forma autónoma, vou abrir uma garrafa de champanhe sozinha e saborear cada golo. 

Tal como todas as mães, tento todos os dias dar-lhe o melhor de mim. 

E se não é fácil com filhos sem patologias, imaginem quem tem filhos a necessitar de muito e em que todos os profissionais de educação fazem falta...

É um caminho demorado, de uma luta constante, cheio de altos e baixos mas que se saboreia lentamente para uma glória sem fim.

Look | Espiga 




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