A minha combinação perfeita

31.3.21

Sempre ambicionamos pertencer às famílias numerosas por isso quando o Tomás nasceu, em momento algum desisti do nosso sonho.

E dias antes do Tomás completar o seu primeiro aniversário, descobri que estava grávida. Não houveram medos mas sim uma grande felicidade.

Seriam 20 meses que os separava. E aquele cliché de não conseguir amar outro filho da mesma forma acompanhou-me até o ver pela primeira vez.  É quase como uma explosão de amor que se apodera de nós. E o amor multiplica-se de uma forma que nunca pensámos. É uma multiplicação de um amor único.

Logisticamente os primeiros meses não foram fáceis, eram dois bebés, com necessidades diferentes e embora apenas fossem dois, houve alturas que senti que tinha uma fábrica de bebés em casa pois passava o meu tempo entre um e outro, sendo que o Francisquinho, era daqueles bebés que só estava satisfeito ao colo.

Houve alturas em que me perdi na escuridão da maternidade, outras que chorei porque me sentia a ser engolida num cansaço sem fim.

Mas se este Primeiro ano foi desafiante traduziu-se ao longo do tempo na melhor coisa que lhes podia ter dado.

Estão a crescer e a descobrir o mundo juntos e isso valeu cada cansaço do passado!! Complementam-se na perfeição, são o braço direito e esquerdo um do outro, pode-lhes faltar tudo, desde que isso não passe por ficarem um sem o outro.

A sua fraqueza é a força um do outro! São a minha combinação perfeita! 

Um é loiro, o outro é moreno, um tem uma alimentação exímia, o outro é a gulodice em pessoa, um tem no mundo nos olhos, o outro o mundo às costas. Um é extrovertido, o outro é introvertido. Um é do mundo, o outro é da casa!

Mas os dois são meus e eu à seis anos não previa que estivesse a construir o meu maior império! Eles, os meus filhos! A minha força!



O dia que dá voz à Trissomia 21

21.3.21

Dizem que é o teu dia mas eu cada vez dou-lhe menos importância!

Um dia que dá voz à trissomia 21. O dia em que me mostra que trissomia é uma definição tantas vezes vaga. Sem o certo e o errado.

Mas afinal o que é a trissomia além de uma alteração genética que resulta de uma anomalia no processo de divisão celular do óvulo fecundado. Uma cópia extra no cromossoma 21.

Chamam-no de cromossoma do amor e disso não tenho dúvidas!

O meu euro milhões! O Tomás é a criança mais mágica e a personificação da simplicidade e do Amor!

E aquelas frases ignorantes pré feitas como "É uma infelicidade ou se tivéssemos que escolher filhos por catálogo não os escolheríamos" não deixam de ser autênticas tolices, isto para não dizer outras coisas piores!

Ter um filho com Trissomia 21 é ir à lua trezentas vezes por dia. É dar a volta ao mundo num só dia. É chorar de felicidade e aplaudir de pé as coisas mais simples da vida. É viver na plenitude do ser e da resiliência.

E eu apenas fui uma sortuda por me ter calhado a melhor rifa no dia 6 de Agosto de 2014. 

Tem coisas menos boas, como tudo na vida. Mas isso faz parte da maternidade!

Existem uns olhos achinesados, alguma maior dificuldade em algumas aquisições de desenvolvimento e uma pureza no sorriso nunca vista.

Que este dia seja apenas um dia que mostra que a diferença está nos olhos de quem a quer ver. O resto é só uma magia que se vê ao longe e se sente na alma.


Ju Araújo



O melhor Pai

19.3.21

Dizem que a mulher procura no seu marido características do seu pai. E embora não os ache iguais, encontrei no meu marido o reflexo do meu. O sentido de família! 

Ser Pai vai muito além de um DNA. Ser Pai é estar na primeira linha das vitórias e das quedas da vida. É quem dá pulos de alegria e quem ampara na queda.  

E eu tive a sorte de ter encontrado o melhor pai para os meus filhos! Um pai presente, preocupado e atento. Um pai que os olha nos olhos, que lhes dá o bom dia e a boa noite com aquele beijinho aconchegante.

Que orienta, que lhes dá banho, que muda as fraldas e que embala.

Que lhes dá liberdade para serem, mas com regras. Que fala e que explica os segredos da vida. Que respeita a mãe.

A todos os bons pais que existem neste mundo. Um Feliz Dia!




Voz própria

18.3.21

Assim que o Tomás nasceu a minha principal preocupação era que ele fosse aceite na sociedade, e a sua aceitação passava por ele se igualar aos seus pares. 

Não queria que em momento algum o olhassem com pena, porque as penas eu deixo para as galinhas, ou que o agrupassem e o catalogassem. Queria apenas que o vissem como um ser individual e com vontade própria. 

Mas para isso tínhamos de ir à luta, e competia a nós desbravar esse caminho, tantas vezes ainda virgem.

O truque foi sorrir e falar abertamente sobre a trissomia e isso só por si além de me fazer passar por "maluquinha", desarmava qualquer pesssoa.

Não me juntei a grupos, não que seja contra, mas isso para mim seria só uma chamada de atenção para a "diferença" do Tomás e eu não queria que a sua Trissomia se sobrepusesse ao seu nome próprio!

Foi aqui que me foquei! Em normalizar a Trissomia, sabendo desde sempre que ele nunca deixaria de a ter, mas também nunca tive essa pretensão, pois o seu cromossoma a mais faz parte dele.

Lutei pela sua comunicação porque isso abriria as portas para o seu futuro! Para mim não havia símbolos ou gestos mas sim palavras, era isso que ambicionava, mesmo que isso implicasse um caminho mais difícil.

Fui em frente com o meu coração, mesmo quanto tive técnicos a dizerem-me que o caminho não passava por aí. Ignorei e procurei as respostas que queria ouvir.

Lutei acima de tudo pelo que lhe tinha jurado: normalidade! 

Não houve, discursos para bebé, mas palavras de adulto desde sempre. Não houve "papa" e "popó" mas sim comida e carro.

Houve terapia e muita! Muitas estratégias entre os técnicos e nós família por um caminho que ambicionava.

Segui o meu instinto e quando via adultos com trissomia 21 procurava ver como falavam, muitos deram-me esperança, outros nem tanto. Mas nunca duvidei! Não sabia o trabalho que tinha sido feito em criança por isso não me focava em exemplos maus mas nos bons, e se havia pelo menos alguém que conseguia, era porque era possível!

Desbravei um caminho longo, para que o Tomás falasse corretamente, articulasse palavras e frases e hoje posso dizer que o faz, nem sempre na perfeição desejada, porque ainda temos um caminho para percorrer mas adequado para se conseguir ouvir.

Não precisa de mim para se exprimir, sabe-o fazer, diz o que quer e o que pensa, e embora curtas já faz frases.

Hoje mandou-me ter calma, e para respirar fundo e aí (incrédula) percebi que nunca estive enganada!







1 Mês (sem ti)

17.3.21

Querida filha,

Faz hoje um mês que te perdemos sem te podermos ver o rosto.

Tem dias que ainda te sinto, como se isso alguma vez fosse possível. Ainda custa ver-me ao espelho e não te ver.

Não te peguei como a natureza manda e esse vazio corrói a alma.

Dei tempo ao tempo, e embora seja ainda tudo muito recente, sinto-me resolvida enquanto mãe. 

Aceitei este nosso caminho curto com dor mas sem culpas e lamentações.

Tem dias que ainda choro por ti. E não existe um dia em que não pense em ti, e acredito que pensarei até ao meu último suspiro. 

És a peça que falta no meu coração. 

E ao contrário do que alguma vez pensei tiveste a proeza de deixar um rasto de amor ainda mais forte entre mim e o teu pai.

Podia ter sido bem pior do que foi e agradeço-te por me teres poupado.

Ainda te tento imaginar nos meus sonhos e projetar um futuro que jamais acontecerá.

Hoje faz um mês que te perdi e já me deixas tantas saudades.






Um novo "Setembro"

15.3.21

Quando percebi que as escolas iam fechar chorei muito, perdi-me em pensamentos negativos e duvidei da minha sanidade mental.

Dei tempo ao tempo, a mim e a eles. Primeiro vivemos em auto gestão. Depois encarei como se fosse umas férias, onde por momentos não houve trabalhos, escolas online e horários definidos.

Pelo meio percebi o que eles queriam e o que não queriam. 

Por fim, reorganizei as ideias, defini um plano. E ao contrário do confinamento passado troquei o campo pela cidade. Pedi ajuda e criei um plano diário, onde coubesse um bocadinho de tudo, desde a casa, à escola, ao trabalho.

Nos tempos livres fui apenas gestora de conflitos e de emoções.

O plano que tracei não dava margens para erro, estava muito bem definido. Eram três horas produtivas, e houve momentos em que foram o meu balão de oxigénio.

Quando as dez horas batiam eu vestia o meu melhor papel de professora, sorria e sentávamo-nos numa mesa de trabalho. 

Ali passava-se tudo, desde as teleescolas que na maioria eram feitas apenas com um corpo presente, às atividades propostas.

Foi cansativo e muito. O ensino não é o meu forte e muitas vezes tive de contar até dez para expirar e inspirar.

Dancei o tango com eles para tornar tudo mais fácil.

A dura realidade de ter filhos com necessidades especiais

12.3.21

Sempre vos falei da dura realidade de ter filhos com necessidades especiais. 

O caminho nem sempre é feito de rosas, existem cravos mas é preciso ter a audácia para os respeitar e aceitar de cabeça erguida.

Mas depois existem coisas que vão muito além do acreditar e do querer. É preciso ter dinheiro, e muito! É necessário ajustar o orçamento familiar vezes sem conta.

E é necessário abdicar de muitas coisas em prol do melhor desenvolvimento possível para os nossos filhos.

Mas depois há quem nem consiga sequer abdicar de nada, porque ou se come ou dá-se "qualidade de vida" e nestes casos prevalece o comer.

É triste, é frustrante e revoltante! Falamos de crianças! De crianças que embora com necessidades especiais deviam ter o direito de poder sonhar por uma "normalidade" que ainda é tão difícil de ser vista nos olhos de outros.

Chamo a isto igualdade de oportunidades e todas as crianças deviam ter esse direito, da mesma forma que também têm o direito de comer e de se vestir.

Quando se fala de terapias, fala-se de sonhos e de um futuro! E é isto que nós pais, apelidados como "especiais", queremos! 

Não é uma questão de querer ter dinheiro para comprar a moradia luxuosa que se vê no Instagram, mas para proporcionar o melhor desenvolvimento para o seu filho.