A definição e a exigência do cumprimento de regras e dos limites torna-se numa questão estrutural no desenvolvimento das crianças. Se nos imaginarmos a conduzir numa estrada sem sinais de trânsito e sem semáforos, provavelmente teremos uma condução pouco segura, em constante estado de alerta e de tensão e a probabilidade de termos acidentes será bem maior. Cada condutor poderá também afirmar que a responsabilidade por aquele acidente que ocorreu não é sua, uma vez que nada indicava que seria ele que teria de parar, exigindo assim os seus direitos.
O mesmo acontece com as crianças cujas regras estão pouco ou mal definidas, ficando a sua conduta pautada pela insegurança, pela tensão e pela exigência da razão.
Muitos são os motivos que levam os pais de hoje em dia a ceder na exigência do cumprimento das regras e a aumentar a margem da tolerância: pouco tempo com os filhos, excesso de trabalho e de cansaço, e consequentemente um sentimento de falha e de necessidade de compensação, maior proximidade na relação com os filhos, a dificuldade dos pais em reconhecer a necessidade da autonomia e da independência dos filhos, com receio de perderem o seu estatuto especial enquanto pais, e muitas vezes por ser o caminho “mais fácil” e mais confortável no imediato. O que é facto é que este “campo aberto” poderá tornar-se num verdadeiro pesadelo na dinâmica familiar, a curto e a longo prazo. As crianças, como especialistas na observação do mundo que as rodeia, percebem e sabem exatamente o que podem fazer com cada pessoa com quem interagem, mediante os sinais que recebem das mesmas. Neste sentido, e salvo casos específicos de algumas patologias psicológicas, as crianças moldam-se àquilo que lhes é exigido, sendo que os alicerces desta relação são lançados pelos adultos, figuras e modelos de referência para as crianças. Não é por acaso que muitas crianças em casa têm um determinado comportamento e na escola têm outro. Se a criança é a mesma, o que será que muda?
É neste contexto que surge o novo programa “supernanny” que tanta polémica tem suscitado entre espetadores e entidades ligadas à prática da psicologia e à proteção das crianças e jovens. Entre posições contra e a favor deste programa, entre os aspetos positivos e negativos que possam existir, será acima de tudo importante refletir sobre os princípios que estão por trás deste programa e em que medida pode ser uma mais valia ou não para a melhoria das práticas parentais ou para o bem estar das crianças.
Em primeiro lugar é necessário ter em conta que um programa de televisão é uma amostra controlada de imagens num determinado período de tempo, não refletindo o todo da situação nem os antecedentes e as consequências do que foi observado. Em segundo é importante referir que cada criança é uma criança e que cada dinâmica familiar é única e particular, sendo desadequado generalizar padrões e técnicas utilizadas a todas as famílias que se poderão identificar com o que é observado no programa.
Há aspetos fundamentais na educação de uma criança que irão contribuir para a estruturação da sua personalidade e para o seu bem estar. As necessidades básicas terão de ser asseguradas pelos adultos e dela fazem parte as necessidades fisiológicas, de segurança, de pertença/sociais, de auto estima e de auto realização.
Enquanto educadores é essencial garantirmos rotinas diárias que assentem nos cuidados básicos de higiene, de alimentação, de vestuário e do sono. Sabemos que muitas vezes as crianças são resistentes a todos estas tarefas, contudo, a experiência revela que com pequenos jogos, brincadeiras, ou com mapas de tarefas estes momentos poderão ser de menor stress para todos. Relativamente aos aspetos de segurança, as crianças precisam de se sentir seguras e protegidas, e este aspeto passa também por sentirem que os adultos que estão à sua volta e que cuidam delas definem bem aquilo que esperam delas, os limites e o funcionamento das coisas, que são firmes, justos e coerentes nas suas decisões, que as exceções existem porque existem as regras. Essa segurança e o saber sempre com o que podem contar, transmite-lhes confiança, serenidade e disponibilidade para crescer.











