Ama-me mais quando menos o mereço. É aí que mais preciso”
(provérbio sueco)
Sente-se num local calmo e pare um pouco. Feche os olhos. Preste atenção ao ar que entra e que sai pelo nariz. Permita-se esquecer de onde está, de como foi o dia, das tarefas que ainda tem de fazer. Sinta só a sua respiração. Imagine que os seus pensamentos são barcos num rio que corre. Deixe-os fluir. Não entre em nenhum desses barcos, não se apegue a nenhum pensamento. Entre em contacto consigo. Fique assim o tempo que desejar. Quando se sentir calmo/a, faça-se as seguintes perguntas: “Quais são as minhas intenções enquanto pai/mãe? Que tipo de pai/mãe quero ser para os meus filhos?”, “Em que momentos eu e os meus filhos somos felizes?”.
Se fizer sentido, registe num papel as respostas que surgiram e guarde-o num local acessível para que possa recordar sempre que quiser.
Sobre a Parentalidade (In)consciente
Passamos muito tempo da nossa vida em piloto automático. Entre as rotinas e o percurso casa - escola dos miúdos – trabalho - escola dos miúdos – futebol – natação – casa (na versão mais reduzida), achamos que sobra pouco tempo e energia para prestar atenção aos padrões de comportamento individuais e parentais, aprendidos ao longo da vida. Digo achamos, porque na verdade há sempre tempo.
Empurramos para debaixo do tapete, encontramos causas exteriores para justificar o que não está a correr tão bem nas nossas vidas e no comportamento das crianças que teima em não melhorar. As coisas lá vão andando, disfarçadas pela tomada da medicação que aumenta cada vez mais nos miúdos e nos graúdos.
As escolhas que fazemos (ou não fazemos) e os padrões comportamentais que mantemos têm consequências na nossa vida. No que diz respeito à parentalidade, a história repete-se e intensifica-se, tendo um impacto imediato na educação das crianças, na relação que se estabelece com os filhos e na formação da personalidade dos mesmos.
Cada um ensina aquilo que é, e mesmo que tente ser uma coisa que não é para os seus filhos, rapidamente eles vão sentir e perceber isso, o que terá um impacto negativo na relação que irão construir. Uma criança respeita e valoriza as pessoas que admira e que são congruentes entre o seu discurso e as suas ações. Isso transmite-lhes segurança e confiança, ingredientes determinantes para um desenvolvimento socio emocional saudável e para o estabelecimento de vínculos fortes e positivos.
Este caminho na tomada de consciência daquilo que se é enquanto pai/mãe de uma criança, está na base da parentalidade consciente. Este conceito, influenciado pelas teorias do vínculo e da autodeterminação descendentes da psicologia e pelos princípios do mindfulness (atenção plena), está muito mais ligado a perguntas do que a respostas. Assenta no questionamento sobre as crenças, ideias, hábitos, valores e comportamentos que aprendemos ao longo da vida e que muitas vezes integramos sem refletirmos sobre eles, perpetuando-se naquilo que transmitimos aos nossos filhos. Assim, “a parentalidade consciente é muito mais sobre desaprender do que sobre aprender”.
Em jeito de exemplo, vejamos as seguintes situações: A maioria das famílias, força as crianças a comerem sopa nas refeições porque para a sociedade isso é o certo. E se para o seu filho, esse momento da refeição for sempre uma situação de conflito e de tensão? Será que vale a pena insistir? Em vários países, as crianças não comem sopa à refeição, havendo outras formas de introduzir os legumes na alimentação das crianças.
Quando a criança rejeita dar dois beijinhos a pessoas que acaba de conhecer, isso é encarado por si com tranquilidade ou sente-se posto em causa relativamente à educação que dá aos seus filhos? Pense no que acontece consigo. Sente-se sempre confortável ao cumprimentar na face as pessoas que conhece? Provavelmente a resposta é não e com certeza que com algumas pessoas estende instintivamente a mão em vez de estender a cara.
Com as crianças é a mesma coisa.
A questão é que com as crianças, temos tendência para olhar para o comportamento e não para a sua causa. Recuemos um pouco à infância: quando os bebés choram, enquanto pai/mãe tenta perceber a origem do choro: se é fome, sono, se a fralda está suja, se está um ambiente demasiado barulhento, se há uma necessidade de aconchego, etc. Ao identificar a causa, tenta satisfazer as necessidades do bebé, acabando este por se acalmar e o choro termina. É assim que a conexão entre pais e filhos se constrói e se fortalece. Por esta altura, o seu foco são as necessidades do bebé e prevalece uma relação empática com o seu filho, colocando-se frequentemente no seu lugar e tentando responder às suas necessidades para que se sinta bem.
“A partir dos 18 meses, aproximadamente, a pergunta essencial deixa de ser o «porquê» e passa a ser o «como». A principal preocupação começa a ser a boa educação e não a curiosidade em perceber qual a necessidade insatisfeita que causa o comportamento.” (Ovén, Mikaela, 2015). É aqui que começa o fosso entre os pais e os filhos e grande parte das birras e conflitos surge devido a este desfasamento.
Assim, à medida que as crianças crescem, a tendência é para deixarmos de olhar tanto para a origem ou causa do comportamento e sim para o comportamento em si, que por norma é alvo de julgamento e de um castigo/consequência. A maioria dos pais foca-se mais em encontrar técnicas e estratégias para controlar ou castigar esse comportamento, do que em identificar as necessidades que não estão a ser atendidas e as emoções que estão por trás de determinado comportamento.
É aqui que começa o fosso entre os pais e os filhos e grande parte das birras e conflitos surge devido a este desfasamento.